Durante décadas, cientistas consideraram a possibilidade de que os cometas tivessem transportado ingredientes fundamentais para o surgimento da vida na Terra. Agora, uma pesquisa liderada pela Universidade de Cambridge coloca essa hipótese em dúvida. Publicado nesta quarta-feira (28), o estudo revela que a velocidade e as condições dos impactos tornariam extremamente improvável a chegada de determinadas moléculas orgânicas intactas à superfície terrestre. A descoberta pode mudar a maneira como investigamos nossas origens.
Por que os cientistas acreditavam que a vida veio dos cometas?
Os cometas são corpos celestes formados principalmente por gelo, poeira e materiais rochosos. Muitos também contêm moléculas orgânicas, incluindo compostos com carbono e nitrogênio, elementos importantes para a química da vida.
Por isso, uma hipótese científica propõe que esses visitantes espaciais tenham contribuído para o surgimento dos primeiros sistemas químicos capazes de originar organismos vivos.
Há aproximadamente 4 bilhões de anos, a Terra recebia impactos frequentes de corpos celestes. Alguns pesquisadores sugeriram que os cometas poderiam ter depositado ingredientes necessários para a química prebiótica, conjunto de reações que antecederam o aparecimento da vida.
Entretanto, transportar moléculas pelo espaço não significa necessariamente conseguir entregá-las intactas a um planeta.
É justamente essa diferença que a nova pesquisa investigou.
Simulações revelam um problema com a velocidade dos cometas
O estudo, publicado na revista científica Scientific Reports, utilizou modelos computacionais para reconstruir impactos de cometas na Terra primitiva.
Os pesquisadores analisaram fatores como velocidade, ângulo de entrada na atmosfera e destruição de compostos químicos durante a colisão.
O principal objeto da investigação foi o cianeto de hidrogênio, também chamado de ácido cianídrico ou HCN.
Apesar de ser uma substância tóxica para os seres humanos, essa molécula pode participar de reações importantes para a formação de compostos associados à origem da vida.
Os resultados mostraram que a maioria dos cometas atingiria a Terra em condições violentas demais para preservar quantidades significativas dessa substância.
Mesmo quando parte das moléculas sobrevivia, a concentração disponível geralmente seria insuficiente para favorecer as reações químicas estudadas.
Em 54% das simulações, nenhum impacto conseguiu entregar HCN nas concentrações consideradas relevantes pelos pesquisadores.
A vida pode ter surgido a partir de ingredientes da própria Terra

A pesquisa não significa que os cientistas tenham descoberto definitivamente como a vida começou.
Na realidade, ela fortalece outras possibilidades.
Uma delas é que moléculas precursoras tenham se formado diretamente na Terra primitiva, por meio de processos químicos envolvendo a atmosfera, a água e diferentes fontes de energia.
Outra hipótese considera a contribuição dos asteroides, que atingiam nosso planeta com maior frequência e poderiam fornecer materiais ou favorecer reações químicas durante os impactos.
Richard Anslow, pesquisador do Instituto de Astronomia de Cambridge e principal autor do estudo, descreveu a ideia de que os cometas tenham fornecido esses ingredientes como uma hipótese atraente, mas considerada muito improvável pelos novos resultados.
A descoberta elimina completamente a participação dos cometas?
Não. Essa é uma distinção importante.
Especialistas independentes ressaltam que a pesquisa analisou principalmente um mecanismo específico: a entrega de cianeto de hidrogênio intacto e em concentrações suficientes para desencadear reações prebióticas.
O astrobiólogo César Menor, da Universidade de Alcalá de Henares, na Espanha, explica que os resultados não demonstram que os cometas jamais contribuíram para a origem da vida.
Outras moléculas orgânicas, diferentes condições de impacto e processos químicos posteriores ainda precisam ser considerados.
Portanto, o estudo enfraquece uma explicação específica, mas não descarta todas as possíveis contribuições dos cometas.
O que essa pesquisa muda na busca por vida extraterrestre?
As conclusões também podem ajudar os cientistas a investigar outros planetas.
Segundo os pesquisadores, Marte poderia apresentar condições mais favoráveis para a entrega de determinadas moléculas por cometas, dependendo das características dos impactos.
Em sistemas planetários distantes, a frequência das colisões e a composição dos corpos celestes também podem influenciar a disponibilidade de ingredientes prebióticos.
Essas informações serão relevantes para futuras missões espaciais e observatórios dedicados à busca de mundos habitáveis.
A principal conclusão é que encontrar moléculas orgânicas no espaço não basta para explicar o surgimento da vida. É necessário compreender como esses compostos chegaram aos planetas, sobreviveram e participaram de reações capazes de produzir sistemas cada vez mais complexos.