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Ciência

A Amazônia pode estar se aproximando de um ponto sem volta — e cientistas alertam que dois terços da floresta poderiam virar savana

Um novo estudo publicado na revista Nature sugere que a Amazônia está perigosamente próxima de um colapso ecológico. O problema não envolve apenas o desmatamento: a floresta depende de um delicado sistema de reciclagem de chuva que pode entrar em colapso caso o aquecimento global continue avançando.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Floresta Amazônica sempre foi tratada como um dos maiores reguladores climáticos do planeta. Mas pesquisadores agora acreditam que ela pode estar muito mais vulnerável do que imaginávamos.

Segundo um novo estudo conduzido pelo Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e publicado na revista Nature, a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode empurrar a Amazônia para um ponto de inflexão ecológico irreversível.

Se isso acontecer, até dois terços da floresta poderiam se transformar gradualmente em uma paisagem semelhante à savana, alterando completamente o clima da região e afetando sistemas ambientais muito além da América do Sul.

O cenário parece extremo, mas os pesquisadores afirmam que ele pode estar mais próximo do que se imaginava há poucos anos.

O problema não é apenas perder árvores

As casas nas árvores da tribo Korowai são tão altas que parecem tocar o céu
© https://x.com/LThHngBch2

Os cientistas explicam que a Amazônia funciona como um enorme sistema climático vivo.

Hoje, cerca de metade da chuva que cai sobre a floresta é produzida pela própria floresta.

As árvores absorvem água do solo e liberam vapor na atmosfera através de um processo chamado evapotranspiração. Esse vapor forma nuvens que posteriormente retornam como chuva sobre a própria região amazônica.

É um gigantesco mecanismo natural de reciclagem de água.

Segundo o estudo, quando grandes áreas da floresta são destruídas, esse ciclo começa a enfraquecer.

Menos árvores significam menos umidade no ar. Menos umidade gera menos chuva. E menos chuva facilita novas secas e incêndios, criando um efeito dominó extremamente perigoso.

O limite pode estar perigosamente próximo

Os pesquisadores estimam que, em 2020, a perda acumulada da Amazônia já estava entre 17% e 18% de toda a floresta original.

O novo estudo sugere que, se o desmatamento alcançar algo entre 22% e 28% e o aquecimento global subir entre 1,5 °C e 1,9 °C, o ecossistema poderá ultrapassar um ponto crítico de estabilidade.

A partir desse momento, grandes áreas da floresta deixariam de conseguir sustentar o próprio regime de chuvas.

Mesmo sem aumento adicional do desmatamento, o estudo alerta que um aquecimento global entre 3,7 °C e 4 °C também poderia produzir o mesmo colapso climático regional.

Segundo Nico Wunderling, pesquisador do instituto alemão e autor principal do trabalho, a floresta está menos resiliente do que estudos anteriores sugeriam.

“O desmatamento seca a atmosfera e enfraquece a própria geração de chuvas da Amazônia”, afirma o cientista.

A Amazônia influencia regiões a milhares de quilômetros

Cientistas alertam: novo clima ameaça a sobrevivência da Amazônia
© https://x.com/proindio

O impacto não ficaria restrito à floresta.

Os pesquisadores explicam que a Amazônia funciona como uma gigantesca bomba de umidade que influencia padrões climáticos em diferentes partes da América do Sul e até em outras regiões do planeta.

Quando o transporte de umidade é interrompido em uma área da floresta, outras regiões começam a sofrer efeitos indiretos.

Segundo Arie Staal, pesquisador da Universidade de Utrecht e coautor do estudo, os efeitos das secas podem se propagar por centenas ou até milhares de quilômetros.

Isso significa que alterações no coração da Amazônia podem afetar agricultura, disponibilidade de água e regimes de chuva em áreas muito distantes.

Um colapso ecológico com consequências globais

A preocupação dos cientistas não envolve apenas biodiversidade.

A Amazônia também é um dos maiores reservatórios de carbono do planeta. Suas árvores armazenam enormes quantidades de CO₂, ajudando a reduzir o avanço do aquecimento global.

Se grandes partes da floresta morrerem ou forem substituídas por vegetação mais seca, parte desse carbono pode retornar à atmosfera, acelerando ainda mais as mudanças climáticas.

Esse processo criaria um ciclo extremamente difícil de interromper.

Por isso, pesquisadores consideram a Amazônia um dos chamados “pontos de inflexão” do sistema climático terrestre — regiões que podem sofrer mudanças abruptas e praticamente irreversíveis caso determinados limites sejam ultrapassados.

A floresta ainda pode ser protegida

Apesar do alerta severo, os cientistas afirmam que o cenário ainda pode ser evitado.

O estudo conclui que reduzir drasticamente o desmatamento e restaurar áreas degradadas são medidas fundamentais para aumentar a resiliência da Amazônia diante do aquecimento global.

A mensagem central da pesquisa é clara: proteger a floresta não significa apenas preservar árvores ou espécies animais.

Significa manter funcionando um dos sistemas naturais mais importantes para o equilíbrio climático do planeta inteiro.

 

[ Fonte: DW ]

 

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