Publicado na revista Antarctic Science, o achado traz a primeira evidência direta de que a Antártida abrigou florestas temperadas há cerca de 90 milhões de anos, quando os dinossauros ainda dominavam o planeta e o clima global era muito mais quente.
O âmbar que veio do fundo do mar

O fragmento foi descoberto na Baía de Pine Island, na costa do mar de Amundsen, oeste do continente. Uma equipe de cientistas perfurou o fundo marinho a partir do navio quebra-gelo alemão Polarstern, alcançando mais de 900 metros sob a plataforma de gelo.
Entre os sedimentos extraídos — uma coluna de três metros de espessura —, encontraram minúsculos fragmentos translúcidos de 0,5 a 1 milímetro. À primeira vista, pareciam grãos de areia, mas análises por espectroscopia revelaram uma composição química idêntica à resina de coníferas.
Era âmbar — o primeiro já confirmado em toda a Antártida. Uma autêntica cápsula do tempo que preserva vestígios químicos e biológicos de um antigo ecossistema.
Um bosque quente no fim do mundo

O âmbar se forma quando a resina escorre de uma árvore, endurece e é soterrada sob camadas de sedimento. Dentro dela, podem permanecer grãos de pólen, fragmentos de casca e até restos microscópicos de insetos.
As amostras apresentavam padrões típicos de resina liberada após ferimentos — indício de incêndios florestais ou ataques de insetos. Os pesquisadores também encontraram partículas de carvão vegetal, prova de que o fogo fazia parte do ambiente.
Esses sinais descrevem um bosque úmido e vivo, repleto de coníferas sob um céu sem gelo — um contraste absoluto com o cenário branco e silencioso que conhecemos hoje.
Uma Antártida verde
Até agora, os depósitos de âmbar mais ao sul vinham da Austrália e da Nova Zelândia. Este novo achado preenche a lacuna entre os dois países e confirma que a Antártida integrava um cinturão de florestas temperadas durante o período Cretáceo.
Os cientistas acreditam que esse clima foi possível graças a altos níveis de dióxido de carbono (CO₂), que criavam um poderoso efeito estufa natural. As temperaturas médias anuais ficavam acima de zero, sem geleiras nem mares congelados.
Naquele mundo antigo, árvores resinosas cresciam sob chuvas frequentes, e dinossauros viviam sob auroras polares — em um planeta mais úmido e quente do que imaginávamos.
Uma janela para o passado do clima
Mais do que um achado geológico, o âmbar antártico é uma chave para entender o futuro climático da Terra. A análise de sua composição química permite estimar temperaturas, umidade e concentração de CO₂ da época em que se formou — cada gota de resina é, literalmente, uma amostra da atmosfera pré-histórica.
“O âmbar não apenas preserva o bosque”, afirmam os pesquisadores. “Ele preserva também o ar que esse bosque respirava.”
Antes do gelo
O estudo muda o que sabemos sobre o continente. A Antártida nem sempre foi um deserto de gelo: no Cretáceo, quando os continentes ainda faziam parte de Gondwana, a vida florescia ali. Com o tempo, as mudanças orbitais e a queda dos níveis de CO₂ deram início à longa era glacial que apagou suas florestas.
Mas sob as camadas de gelo e rocha, a memória do verde permanece viva — aprisionada em diminutos fragmentos dourados.
Como escreveu um dos cientistas do Polarstern:
“Cada grão de âmbar é uma folha do bosque perdido da Antártida. E agora, depois de 90 milhões de anos, ele finalmente voltou a ver a luz.”