A guerra na Ucrânia entrou em uma nova e sombria fase. O que antes era um embate de infantaria e artilharia ganhou um novo protagonista: drones conectados por cabos de fibra óptica. Essa tecnologia emergente está dificultando a movimentação das tropas ucranianas, tornando o simples deslocamento entre cidades mais perigoso do que o próprio combate na linha de frente.
Um campo de batalha sob constante vigilância aérea
Em Rodynske, cidade da região de Donetsk, o cheiro de fumaça e destruição paira no ar. Uma bomba planadora russa de 250 kg atingiu o principal edifício administrativo, destruindo blocos residenciais. O som de artilharia e tiros ecoa ao longe — são tropas ucranianas tentando derrubar drones russos.
A cidade, localizada a apenas 15 km de Pokrovsk, está sob cerco. A Rússia mudou de estratégia: em vez de tentar tomar Pokrovsk diretamente, agora busca isolá-la cortando as rotas de abastecimento. Com os esforços de cessar-fogo fracassados, Moscou intensificou seus ataques, conquistando avanços significativos.
Drones sobrevoam a região com regularidade. Um deles chegou a perseguir uma equipe de reportagem, forçando-a a buscar abrigo sob uma árvore, depois em uma construção abandonada. O simples som de um drone basta para causar pânico. Sua presença indica risco iminente de explosão.
Os drones agora vêm de perto
Los rusos han creado unos drones resistentes a los medios de guerra radioelectrónica, se controlan remotamente por medio de un cable de fibra óptica que se desenrolla a medida que se alejan de sus operarios, el dron tiene un alcance de entre 10 y 20 km según la longitud del cable pic.twitter.com/bVIUllvVl7
— Poderío Militar 🇪🇸🤝🇺🇦 (@PoderioMilitar) August 28, 2024
A frequência dos ataques indica que os drones não estão sendo lançados de posições russas distantes, mas sim de territórios recém-conquistados ao redor de Pokrovsk. Isso encurta o tempo de resposta das tropas ucranianas e amplia o alcance das operações russas.
A equipe de reportagem conseguiu escapar de Rodynske apenas após longos minutos de espera e incerteza. No caminho, avistaram o que parecia ser um drone abatido — uma raridade, dada a nova tecnologia envolvida.
Em Bilytske, o impacto é ainda mais cruel
Na cidade vizinha de Bilytske, a destruição causada por mísseis noturnos é visível em cada rua. Svitlana, de 61 anos, perdeu sua casa em um ataque recente. “Antes, as explosões eram distantes. Agora somos nós que estamos sendo atingidos”, lamenta.
A padaria e até o zoológico da cidade foram destruídos. Svitlana recolhe o que sobrou entre os escombros, como tantos outros ucranianos obrigados a recomeçar do zero.
A espera pela proteção do clima
Em um abrigo improvisado, soldados da 5ª Brigada de Assalto ucraniana aguardam há dias por uma brecha climática — nuvens espessas ou ventos fortes — que permita se movimentar com menor risco de serem detectados pelos drones.
“Eles estão usando tudo que têm: foguetes, morteiros, drones…”, conta o soldado Serhii. A guerra virou um jogo de paciência, tecnologia e timing.
O diferencial dos drones com fibra óptica

A nova geração de drones representa um salto tecnológico. Em vez de depender de sinais de rádio, esses aparelhos utilizam cabos de fibra óptica conectados diretamente ao operador. A transmissão de dados e comandos ocorre via cabo, o que os torna imunes a interferências eletrônicas, como bloqueadores de sinal.
“É praticamente impossível neutralizá-los com os sistemas eletrônicos que temos”, explica um engenheiro da 68ª Brigada Jaeger, conhecido pelo codinome Moderador.
Enquanto no início da guerra os exércitos conseguiam bloquear drones comuns com relativa facilidade, os modelos de fibra óptica tornaram essas defesas obsoletas. Eles podem voar em altitudes muito baixas, entrar em casas e procurar alvos com precisão assustadora.
A Rússia saiu na frente
Segundo o piloto ucraniano Venia, a Rússia começou a usar esses drones muito antes da Ucrânia, que ainda estava em fase de testes. Isso deu aos russos uma vantagem tática significativa.
“Às vezes brincamos que precisamos levar tesouras para cortar os cabos”, diz Serhii com um misto de humor e desespero.
Uma guerra cada vez mais tecnológica — e desumana
Com a introdução dos drones de fibra óptica, a guerra na Ucrânia atinge um novo nível de sofisticação e letalidade. Não se trata mais apenas de conquistar território, mas de dominar os céus e o tempo de reação do inimigo.
[ Fonte: G1.Globo ]