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O turismo na Antártida explodiu nos últimos anos — e cientistas começam a temer que visitantes levem doenças e danos irreversíveis ao continente mais isolado do planeta

Com dezenas de milhares de turistas desembarcando todos os anos na Antártida, especialistas alertam para riscos que vão muito além do impacto ambiental tradicional. Vírus, microrganismos invasores e pressão crescente sobre ecossistemas extremamente frágeis começam a preocupar autoridades internacionais e pesquisadores.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, a Antártida parecia um território distante demais para o turismo de massa.

Hoje, isso mudou rapidamente.

Navios de luxo, cruzeiros científicos e expedições de aventura estão levando cada vez mais pessoas ao continente gelado — impulsionadas, em parte, por um sentimento curioso e inquietante: o desejo de conhecer a Antártida antes que ela mude para sempre por causa das mudanças climáticas.

Mas o crescimento acelerado das visitas começa a gerar preocupação entre cientistas e ambientalistas.

O medo agora não envolve apenas poluição ou degradação ambiental. Existe também um risco crescente de introdução de doenças, microrganismos invasores e impactos permanentes em um dos ecossistemas mais frágeis do mundo.

O turismo antártico cresceu dez vezes em três décadas

Crucero Hantavirus
© AFP via Getty

Segundo dados da International Association of Antarctica Tour Operators, mais de 80 mil turistas desembarcaram na Antártida em 2024.

Outras 36 mil pessoas observaram o continente apenas a partir de navios, sem pisar em terra.

Pode parecer pouco comparado a destinos turísticos tradicionais, mas o crescimento impressiona: o turismo antártico aumentou cerca de dez vezes nos últimos 30 anos.

E os números podem explodir ainda mais.

Pesquisadores da University of Tasmania acreditam que o total anual de visitantes pode ultrapassar 400 mil pessoas na próxima década, impulsionado pela redução de custos e pela chegada de embarcações mais modernas capazes de navegar em áreas congeladas.

O “turismo de última chance” virou tendência

Parte desse aumento está ligada ao chamado “last chance tourism” — ou “turismo de última oportunidade”.

Muitos viajantes querem ver geleiras, icebergs e colônias de pinguins antes que o aquecimento global transforme drasticamente a paisagem.

A Península Antártica, principal destino turístico da região, está entre os locais que mais aquecem no planeta.

Dados da NASA indicam que, entre 2002 e 2020, a Antártida perdeu cerca de 149 bilhões de toneladas de gelo por ano.

O surto de hantavírus chamou atenção internacional

Surto suspeito de hantavírus em cruzeiro deixa três mortos no Atlântico
© https://x.com/AlertaMundoNews/

O debate ganhou força após um surto mortal de hantavírus a bordo do navio polar MV Hondius, que realizava um cruzeiro pela região.

Segundo a World Health Organization, a embarcação saiu de Ushuaia em abril e percorreu áreas da Antártida e ilhas isoladas.

As autoridades investigam inclusive uma possível transmissão entre passageiros durante a viagem.

A médica Maria Van Kerkhove afirmou que o primeiro caso provavelmente ocorreu antes do embarque, mas o episódio serviu como alerta para os riscos sanitários crescentes associados ao turismo extremo.

O perigo invisível dos microrganismos

O problema vai muito além de grandes acidentes ambientais.

A Antártida possui um ecossistema extremamente sensível, com espécies que evoluíram isoladas durante milhares de anos. Isso significa que pequenos contaminantes podem causar impactos enormes.

Nos últimos anos, aves migratórias vindas da América do Sul levaram gripe aviária para partes da Antártida.

Agora, cientistas temem que turistas também transportem sementes, fungos, bactérias e vírus involuntariamente.

Até algo aparentemente banal — como terra presa na sola de uma bota — pode carregar organismos invasores.

Por isso, protocolos rígidos começaram a ser adotados.

Aspiradores, desinfetantes e botas esterilizadas

Guias e operadores turísticos passaram a exigir processos intensivos de limpeza antes dos desembarques.

Passageiros precisam higienizar botas, roupas e equipamentos com aspiradores, escovas e desinfetantes para remover sementes, penas, insetos e partículas microscópicas.

As regras também proíbem aproximação excessiva dos animais e contato direto com o solo além dos próprios pés.

Segundo especialistas, essas medidas tentam evitar que a presença humana altere permanentemente o ambiente.

E há motivo para preocupação.

Na Antártida, uma simples pegada pode permanecer visível durante décadas.

O continente foi pensado para ciência — não para turismo massivo

A Antártida é protegida pelo Tratado da Antártida, que definiu o território como reserva científica voltada exclusivamente para fins pacíficos.

Mas o tratado foi elaborado em uma época em que o turismo era praticamente inexistente.

Agora, organizações ambientais defendem que as regras precisam ser fortalecidas urgentemente.

A diretora da Antarctic and Southern Ocean Coalition, Claire Christian, afirma que a região deve ser tratada como um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta.

O fascínio pela Antártida continua crescendo

Apesar dos alertas, o interesse pelo continente só aumenta.

Paisagens gigantescas, baleias, focas, pinguins e icebergs continuam atraindo turistas em busca de uma experiência considerada quase “fora da Terra”.

Talvez justamente por isso a discussão tenha se tornado tão delicada.

Porque quanto mais pessoas quiserem ver a Antártida antes que ela desapareça, maior pode ser o risco de acelerar exatamente as transformações que elas esperam testemunhar.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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