Durante anos, videogames serviram como laboratório secreto para o avanço da inteligência artificial.
Foi em jogos que algoritmos aprenderam a derrotar campeões mundiais de xadrez, Go, StarCraft II e Dota 2. Mas agora a relação entre IA e games está entrando em uma nova fase — muito mais direta.
O Google DeepMind anunciou uma parceria estratégica com a empresa responsável por EVE Online, um dos MMORPGs mais complexos e politicamente caóticos já criados.
E o acordo vai além de pesquisa.
O laboratório de IA também adquiriu uma participação minoritária na desenvolvedora, agora chamada Fenris Creations.
O jogo escolhido não foi por acaso
Lançado em 2003, EVE Online ficou famoso por oferecer um universo gigantesco e quase totalmente controlado pelos próprios jogadores.
O game possui mais de 7 mil sistemas estelares conectados, onde jogadores podem minerar recursos, construir impérios econômicos, praticar pirataria espacial, participar de guerras massivas e até influenciar sistemas políticos internos.
Ao longo dos anos, EVE ganhou reputação de “planilha espacial” justamente pela profundidade absurda de suas mecânicas sociais e econômicas.
E é exatamente isso que interessa ao DeepMind.
Segundo o anúncio oficial, a parceria vai estudar “inteligência em sistemas complexos, dinâmicos e orientados por jogadores”.
A IA quer aprender planejamento, memória e adaptação contínua
Na prática, os pesquisadores usarão versões offline de EVE Online rodando em servidores locais para testar modelos de IA em situações extremamente complexas.
O objetivo é trabalhar capacidades como:
- planejamento de longo prazo;
- memória persistente;
- aprendizado contínuo;
- adaptação em ambientes imprevisíveis;
- tomada de decisão em sistemas sociais dinâmicos.
Isso é importante porque boa parte dos modelos atuais de IA ainda funciona melhor em tarefas relativamente limitadas e previsíveis.
Já EVE Online é o oposto disso.
O universo do jogo muda constantemente conforme decisões humanas, alianças políticas, crises econômicas e guerras entre jogadores.
O DeepMind acredita que videogames são o melhor laboratório possível
O CEO e cofundador do DeepMind, Demis Hassabis, afirmou no comunicado que jogos são “o ambiente perfeito para desenvolver e testar algoritmos de inteligência artificial”.
A declaração faz sentido dentro da história do próprio laboratório.
Foi o DeepMind que criou o famoso AlphaGo, sistema que derrotou o campeão mundial Lee Sedol em 2016 em um feito considerado histórico para a IA.
Anos depois, o laboratório também desenvolveu o AlphaStar, que atingiu nível Grandmaster em StarCraft II.
Agora, o desafio parece ainda maior.
Enquanto StarCraft possui partidas relativamente delimitadas, EVE Online funciona quase como um universo persistente em escala social.
A OpenAI já havia mostrado o potencial dos games
O DeepMind não é o único laboratório a usar videogames como campo de treinamento.
Em 2019, a OpenAI criou um sistema capaz de derrotar jogadores profissionais em Dota 2.
O episódio ganhou importância histórica dentro da própria empresa.
Segundo uma reportagem recente do The New York Times, foi justamente após saber da vitória da IA no torneio internacional de Dota 2 que Elon Musk teria enviado uma mensagem dizendo: “É hora do próximo passo para a OpenAI”.
O sucesso em jogos passou a ser visto como sinal de que a IA estava pronta para desafios muito maiores.
A indústria dos games pode mudar completamente
Além da pesquisa, o acordo entre DeepMind e Fenris Creations também prevê exploração de “experiências de gameplay impulsionadas por IA”.
Isso abre espaço para possibilidades enormes.
NPCs capazes de aprender com jogadores, economias virtuais mais realistas, personagens com memória persistente e mundos que evoluem dinamicamente podem se tornar parte dos games da próxima década.
O CEO da Fenris Creations, Hilmar Veigar Pétursson, afirmou estar particularmente interessado em explorar sistemas de inteligência emergente dentro de universos conduzidos pelos próprios jogadores.
Os games deixaram de ser só entretenimento
Durante muito tempo, videogames foram vistos apenas como diversão digital.
Hoje, eles estão se transformando em laboratórios para algumas das tecnologias mais importantes do planeta.
Porque, para empresas de IA, jogos não são apenas jogos.
São ambientes seguros onde algoritmos podem aprender estratégia, adaptação, cooperação, conflito e tomada de decisão em mundos imprevisíveis — exatamente o tipo de habilidade que pesquisadores querem levar para a inteligência artificial do mundo real.