Nosso cérebro processa milhares de estímulos a cada segundo. Mas como ele decide o que é real e o que é produto da mente? Um estudo recente da University College London investigou essa pergunta por meio de experimentos que desafiaram os limites entre percepção e imaginação. As descobertas não apenas explicam ilusões cotidianas, mas também podem ajudar no tratamento de transtornos mentais.
Um experimento criado para confundir
Pesquisadores do Imagine Reality Lab realizaram testes com 26 voluntários usando um scanner cerebral. Durante os testes, os participantes viam imagens borradas ou eram instruídos a apenas imaginá-las. Em seguida, deviam relatar se haviam realmente enxergado algo — e quão vívida foi essa experiência.
A proposta se inspirou em um experimento clássico de 1910, onde imagens semelhantes à “chuva” de uma TV fora do ar foram usadas para gerar confusão visual. Com isso, os cientistas buscavam capturar o exato momento em que o cérebro se enganava.
O “limiar da realidade” mora no cérebro
Os resultados revelaram que uma área chamada giro fusiforme — ligada ao processamento visual — foi crucial. Essa região se ativava com intensidade tanto diante de imagens reais quanto durante imaginações muito vívidas. Quando a atividade nessa zona ultrapassava certo nível, o cérebro automaticamente interpretava aquilo como “real”.

Essa descoberta foi batizada de limiar de realidade: uma fronteira sutil onde o volume da atividade neural determina se acreditamos no que vemos ou não. Além disso, áreas como o córtex pré-frontal dorsomedial e a ínsula anterior também se mostraram envolvidas, sugerindo que a decisão sobre o que é real é mais complexa do que parece.
Quando a mente acredita no que não existe
Essa fronteira imprecisa entre realidade e imaginação tem implicações importantes. Em condições como esquizofrenia, por exemplo, falhas nesse sistema podem fazer com que o cérebro aceite como verdade percepções que são apenas criações internas.
Entender melhor esse mecanismo abre caminhos para terapias que modulam essa atividade neural, ajudando pacientes a diferenciar o que é externo do que é mental. Para todos nós, o estudo mostra como o cérebro pode ser enganado — inclusive por ele mesmo.