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Ciência

A baleia de 200 anos que pode revelar o segredo da longevidade humana

Cientistas descobriram que a baleia-da-Gronelândia, capaz de viver mais de dois séculos, possui um poderoso mecanismo natural de reparo do DNA. Essa habilidade, ligada a uma proteína chamada CIRBP, pode inspirar futuras terapias contra o envelhecimento e o câncer em humanos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Entre os gigantes do oceano, a baleia-da-Gronelândia (Balaena mysticetus) se destaca não apenas pelo tamanho — que pode ultrapassar 18 metros —, mas por algo ainda mais extraordinário: sua longevidade. Esses mamíferos marinhos vivem mais de 200 anos, escapando por décadas de doenças que afetam quase todas as outras espécies, incluindo o câncer.

Agora, um estudo internacional publicado na revista Nature aponta que o segredo pode estar escondido dentro das suas células, em um mecanismo biológico que protege seu DNA de mutações.

A proteína que repara o tempo

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© Pexels

A pesquisa, liderada pelos cientistas Jan Vijg (Faculdade de Medicina Albert Einstein) e Vera Gorbunova (Universidade de Rochester), sugere que a excepcional longevidade das baleias está ligada a uma proteína chamada CIRBP (Cold-Inducible RNA-Binding Protein).

Essa molécula atua como uma espécie de “zeladora genética”, reparando as quebras de dupla hélice no DNA — um dos tipos de danos mais graves que uma célula pode sofrer. Em humanos e outros mamíferos, esses rompimentos estão associados ao envelhecimento celular e ao surgimento de tumores.

Os pesquisadores observaram que as baleias-da-Gronelândia possuem níveis muito mais altos de CIRBP do que outras espécies analisadas. Quando a proteína foi introduzida em células humanas e de moscas-das-frutas, a capacidade de reparo do DNA aumentou — e, no caso das moscas, a expectativa de vida foi prolongada.

A “paradoxo de Peto” e a resistência ao câncer

O estudo também se apoia em um conceito conhecido como Paradoxo de Peto, que questiona por que animais muito grandes, com milhões de vezes mais células do que os pequenos, não têm taxas mais altas de câncer.

Em teoria, mais células e mais anos de vida significariam mais oportunidades de mutação e, portanto, mais tumores. Mas espécies como elefantes e baleias desafiam essa lógica. Elas parecem ter desenvolvido mecanismos extras de proteção genética ao longo da evolução.

Para investigar isso, a equipe de pesquisadores expôs células da baleia-da-Gronelândia a estímulos que induzem mutações, como radiação ultravioleta. O resultado foi surpreendente: as células da baleia acumulavam menos danos que as humanas e, quando lesionadas, reparavam-se com muito mais eficiência.

Segundo Gorbunova, “isso mostra que a baleia não é imune ao dano genético — ela simplesmente aprendeu a consertá-lo melhor”.

O papel da água gelada

Ballena 1
© Pexels – Francesco Ungaro.

Outro fator curioso observado no estudo é que a produção da proteína CIRBP aumenta com o frio. Quando as células são expostas a temperaturas ligeiramente mais baixas, elas produzem mais dessa molécula reparadora.

Essa descoberta pode ajudar a explicar por que as baleias-da-Gronelândia, que vivem em águas árticas congelantes, desenvolveram níveis tão altos de CIRBP. O ambiente extremo teria favorecido, ao longo de milhões de anos, um sistema celular altamente adaptado ao frio e à longevidade.

O biólogo Andrei Seluanov, coautor do estudo, destaca que ainda não se sabe “qual grau de exposição ao frio seria necessário para reproduzir esse efeito em humanos”, mas o fenômeno abre novas linhas de pesquisa sobre como o clima e o metabolismo influenciam o envelhecimento.

A fronteira entre biologia e longevidade humana

Os cientistas agora investigam maneiras seguras de aumentar a produção de CIRBP em células humanas, seja por estímulos ambientais ou por biotecnologia. O objetivo é entender se essa proteína poderia reduzir o acúmulo de mutações, retardar o envelhecimento e até proteger contra doenças degenerativas e câncer.

Embora a aplicação prática ainda esteja distante, o estudo reforça a ideia de que a evolução guarda soluções biológicas que podem inspirar a medicina moderna. A baleia-da-Gronelândia, que atravessa séculos e gerações sem sucumbir ao tempo, pode ser a prova viva — ou nadadora — de que a natureza já descobriu como vencer o envelhecimento.

 

[ Fonte: DW ]

 

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