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Ciência

O segredo em uma colher: a terapia que pode mudar o destino do câncer infantil

Um hospital público espanhol desenvolveu um tratamento celular experimental que já salvou a vida de oito crianças e adolescentes sem alternativas diante de uma leucemia agressiva. Chamado CAR-T tándem, o “medicamento vivo” cabe em uma colher, mas tem potencial para transformar o futuro da medicina e da oncologia pediátrica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

No Hospital La Paz, em Madri, um pequeno grupo de médicos ousou tentar o impossível: criar uma terapia celular capaz de devolver a vida a pacientes pediátricos em situação terminal. O resultado foi surpreendente. A equipe conseguiu desenvolver um tratamento inovador, produzido dentro do próprio hospital, que desafia os limites da ciência e reacende a esperança contra o câncer infantil.

Uma revolução nascida da necessidade

A leucemia linfoblástica aguda tipo B é o câncer infantil mais frequente. Quando os tratamentos convencionais falham, as opções acabam. Foi nesse cenário que a equipe liderada pelo pediatra Antonio Pérez decidiu agir: extraiu células de defesa dos próprios pacientes, reprogramou-as em laboratório e devolveu-as como caçadoras de tumores.

Nos primeiros 11 pacientes tratados, a taxa de sobrevivência após 18 meses foi de 70%. Oito crianças seguem vivas graças a essa estratégia experimental, incluindo Lucía Álvarez, de 15 anos, diagnosticada ainda bebê. Hoje, ela frequenta a escola e sonha em estudar biologia.

Como funciona o “medicamento vivo”

O tratamento, chamado CAR-T tándem, é uma evolução da imunoterapia celular. Ele equipa os glóbulos brancos com receptores artificiais, uma espécie de “radar” que identifica proteínas específicas nos tumores. Enquanto o CAR-T tradicional reconhecia apenas a proteína CD19, permitindo que o câncer escapasse, a nova versão detecta também a CD22, ampliando a eficácia.

Em apenas um mês, oito dos onze pacientes ficaram sem vestígios da doença. O tratamento costuma ser complementado com transplante de medula óssea, consolidando a remissão. Os resultados preliminares, publicados na revista eBioMedicine, superaram todas as expectativas.

Histórias que dão rosto à ciência

Lucía não foi a única a receber essa segunda chance. Mathías, de sete anos, passou metade da vida no hospital até que o CAR-T tándem eliminou seu tumor em semanas. Casos como o dele lembram o que o imunologista Carl June chamou de “ressurreições de Lázaro”.

Atualmente, existem apenas oito CAR-T aprovados na União Europeia, a maioria criada por farmacêuticas privadas a preços que ultrapassam 300 mil euros. O de La Paz, assim como o ARI-0001 de Barcelona, mostra que hospitais públicos também podem liderar inovações de ponta com custos muito mais acessíveis.

Medicamento Vivo1
© Karola G

O próximo passo: editar a vida para salvá-la

A equipe já trabalha com editores genéticos de DNA para criar terapias universais a partir de células doadas, uma solução vital para pacientes sem tempo ou sem células próprias viáveis. A inspiração veio do caso Alyssa, em Londres, primeira paciente a receber células geneticamente reescritas.

Todos os anos, cerca de 400 mil crianças são diagnosticadas com câncer no mundo. Apesar de avanços, 20% ainda não têm cura. Para esses casos, Pérez defende que a pesquisa pública deve continuar abrindo caminhos.

Uma colher de esperança

Quando Lucía declarou “estou feliz de estar aqui”, resumiu o impacto da descoberta. O tratamento não é uma metáfora, mas um medicamento vivo, feito de células reprogramadas que viajam pelo corpo para derrotar o incurável. Pequeno em tamanho, mas imenso em significado, ele mostra que a ciência pode escrever o futuro com vida.

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