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Ciência

O relógio da paternidade: como o esperma muda com a idade e afeta a herança genética

Durante muito tempo, a atenção sobre a idade reprodutiva recaiu quase exclusivamente nas mulheres. Agora, a ciência mostra que o esperma também envelhece. Novas pesquisas revelam que ele acumula mutações ao longo da vida e que a paternidade tardia pode aumentar o risco de transmitir variantes genéticas prejudiciais aos filhos.
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Tempo de leitura: 2 minutos

A fertilidade masculina foi historicamente considerada estável ao longo da vida. Porém, estudos recentes começam a desafiar essa ideia. Cientistas descobriram que o esperma sofre mudanças genéticas com o tempo e que essas alterações podem impactar diretamente a saúde da descendência. O achado redefine a visão sobre herança e traz novas implicações para a paternidade.

Um mapa genético que se transforma

A pesquisa, publicada na revista Nature por especialistas do Instituto Sanger e do King’s College de Londres, analisou 81 amostras de sêmen de 57 homens entre 24 e 75 anos, usando a técnica de ultra precisão NanoSeq.

Os resultados mostraram que o DNA dos espermatozoides acumula, em média, 1,67 novas mutações por ano. Isso significa que, com o envelhecimento, cresce a probabilidade de que parte do esperma carregue variantes potencialmente nocivas.

Além disso, os pesquisadores observaram que não se trata apenas de erros aleatórios: algumas mutações conferem vantagens celulares e passam a se multiplicar dentro dos testículos ao longo do tempo.

Quando as mutações se tornam dominantes

O estudo revelou que, em homens com mais de 50 anos, entre 3% e 5% dos espermatozoides apresentam mutações prejudiciais no exoma — a parte do genoma responsável pela produção de proteínas. Em indivíduos mais jovens, esse índice fica em torno de 2%, mas em homens de 70 anos pode chegar a 4,5%.

Essas alterações estão associadas a distúrbios do desenvolvimento e a uma predisposição para certos tipos de câncer infantil. Como explica a pesquisadora Raheleh Rahbari, “o esperma masculino não é estático, mas um ambiente dinâmico onde a seleção natural continua atuando”.

Impactos para a saúde e a paternidade

Embora a maioria das mutações não resulte em doenças — algumas até impedem a fertilização —, os cientistas alertam que a paternidade tardia duplica o risco de transmitir variantes prejudiciais.

Isso pode aumentar as chances de síndromes genéticas, alterações no desenvolvimento ou até tumores pediátricos. Por esse motivo, especialistas recomendam incluir o aconselhamento genético masculino no planejamento familiar, especialmente quando há histórico de doenças hereditárias.

“O DNA masculino também envelhece e, com ele, crescem os riscos de transmissão de mutações”, afirma Matt Hurles, diretor do Instituto Sanger.

Uma nova forma de entender a herança

O estudo sugere que a herança genética masculina não é um processo passivo. Em vez disso, o esperma sofre pressões de seleção que moldam o DNA ao longo da vida.

Essa descoberta levanta questões sobre como a paternidade tardia pode ter influenciado a evolução humana e o surgimento de certas doenças hereditárias.

Os cientistas reforçam que o objetivo não é gerar alarme, mas consciência: a idade também importa para a fertilidade masculina, e compreender esse “relógio genético” pode orientar decisões mais informadas sobre quando ter filhos.

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