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Ciência

A China tem mais energia solar e eólica do que nunca — o gargalo agora está entre a geração e as tomadas

A expansão renovável chinesa bate recordes e antecipou metas em vários anos. Ainda assim, uma parte essencial do sistema elétrico não consegue avançar na mesma velocidade.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Poucos países transformaram seu sistema energético tão rapidamente quanto a China. Painéis solares e turbinas eólicas surgem em uma escala difícil de comparar, enquanto bilhões de dólares são direcionados à energia limpa. Seria natural imaginar que o carvão estivesse desaparecendo na mesma velocidade. Não está. A aparente contradição revela um dos maiores desafios da transição energética: gerar eletricidade limpa é apenas uma parte do problema.

A China chegou seis anos antes a uma meta que parecia distante

Em 2024, a China já havia alcançado a capacidade combinada de energia solar e eólica que pretendia atingir apenas em 2030.

Naquele mesmo ano, o país investiu mais de US$ 625 bilhões em energia limpa, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

A expansão também consolidou a China como uma potência industrial em tecnologias essenciais para a transição energética, incluindo painéis solares, baterias e diversos componentes utilizados em sistemas renováveis.

Mas construir milhões de painéis e turbinas não resolve sozinho a equação.

A eletricidade precisa chegar aos lugares onde será consumida exatamente quando existe demanda.

Por isso, os investimentos chineses também começaram a se concentrar em uma infraestrutura menos visível: a rede elétrica.

A IEA estima que aproximadamente US$ 88 bilhões foram destinados à transmissão e distribuição em 2025.

Esse dinheiro ajuda a explicar onde está o verdadeiro desafio.

Em algumas regiões, a capacidade de instalar novas fontes renováveis cresceu mais rapidamente do que a infraestrutura necessária para conectá-las e aproveitar toda a eletricidade produzida.

O problema começa depois que o painel solar já está funcionando

Energia solar e eólica possuem uma característica inevitável: sua geração depende das condições ambientais.

Uma usina solar produz quando existe radiação suficiente. Uma turbina eólica depende do vento.

Isso não significa que o consumo de eletricidade estará elevado exatamente naquele momento.

Quando existe geração demais e faltam linhas de transmissão, baterias ou demanda para absorvê-la, operadores podem precisar reduzir deliberadamente a produção.

O processo é conhecido como curtailment, ou corte de geração.

A IEA registrou problemas de congestionamento e conexão em 11 províncias chinesas em 2024, especialmente envolvendo sistemas solares distribuídos.

É uma situação contraintuitiva: existe energia limpa disponível, mas o sistema não consegue utilizá-la integralmente.

E é justamente quando o sol desaparece, o vento diminui ou a demanda dispara que surge novamente uma velha fonte de eletricidade.

É aqui que o carvão continua sendo difícil de abandonar

Usinas térmicas conseguem produzir eletricidade quando necessário, ajudando a equilibrar períodos de baixa geração renovável ou picos de consumo.

Com redes melhores, armazenamento, hidrelétricas e gerenciamento da demanda, a China poderia progressivamente utilizar essas usinas por menos horas e de maneira mais flexível.

Mas essa transição ainda está em andamento.

Em 2026, a geração elétrica a carvão voltou a crescer depois de sua primeira queda em mais de uma década.

Nos primeiros cinco meses do ano, a geração térmica — predominantemente carvão — aumentou 3,4% em relação ao mesmo período anterior, segundo dados reportados pela Reuters.

Maior demanda, condições menos favoráveis para algumas fontes renováveis e ondas de calor ajudaram a elevar a necessidade de geração controlável.

No fim de setembro de 2026, o carvão ainda respondia por mais da metade da eletricidade chinesa, segundo a Reuters.

Instalar mais renováveis não significa desligar automaticamente uma térmica

Essa é a peça central do quebra-cabeça.

Adicionar capacidade solar e eólica aumenta a quantidade de eletricidade limpa disponível, mas não substitui imediatamente fontes capazes de gerar energia sob demanda.

Para reduzir estruturalmente a dependência do carvão, a China precisa ampliar simultaneamente a transmissão, armazenamento, flexibilidade da rede, gerenciamento da demanda e mecanismos de mercado.

O país está investindo nessas áreas, mas transformar um dos maiores sistemas elétricos do planeta leva tempo — especialmente enquanto a própria demanda continua crescendo.

A China consegue instalar mais renováveis que qualquer outro país, mas ainda depende do carvão porque sua rede precisa garantir eletricidade mesmo quando sol e vento não estão disponíveis e ainda não possui flexibilidade suficiente para aproveitar toda a nova geração limpa.

A transição chinesa, portanto, parece avançar em duas direções ao mesmo tempo.

A verdadeira mudança acontecerá quando redes, baterias e outros mecanismos conseguirem crescer tão rapidamente quanto os parques solares e eólicos.

Só então os recordes de instalação poderão se transformar, de maneira sustentada, em menos carvão queimado.

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