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Ciência

Um fenômeno climático revelou a maior fragilidade da transição energética chinesa

Depois de anos reduzindo sua dependência dos combustíveis fósseis, a maior potência em energia renovável do planeta enfrentou um obstáculo que poucos previam. O episódio revelou um desafio muito maior do que parecia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante mais de uma década, a China investiu pesadamente na expansão de fontes limpas de energia. O país liderou a produção mundial de painéis solares, construiu enormes parques eólicos e ampliou sua capacidade hidrelétrica em um ritmo sem precedentes. Os resultados começaram a aparecer em 2025, quando a geração de eletricidade a partir do carvão registrou sua primeira queda em dez anos. No entanto, poucos meses depois, uma combinação de fatores mostrou que essa transição ainda enfrenta obstáculos importantes.

Um fenômeno inesperado mudou o equilíbrio do sistema elétrico

A redução do uso do carvão parecia marcar uma nova etapa na matriz energética chinesa. Com a rápida expansão das fontes renováveis, a expectativa era que a energia solar e a eólica continuassem substituindo gradualmente as usinas termelétricas.

Mas esse cenário mudou logo nos primeiros meses de 2026.

Entre janeiro e maio, a geração de eletricidade por usinas térmicas, alimentadas principalmente por carvão e, em menor escala, por gás natural, voltou a crescer. Segundo dados oficiais, a produção aumentou 3,4% em comparação com o mesmo período do ano anterior, alcançando aproximadamente 2,53 trilhões de quilowatts-hora.

Uma das principais explicações veio do próprio clima.

Durante março, abril e maio, a intensidade dos ventos ficou abaixo do registrado em qualquer um dos dez anos anteriores. Como consequência, os parques eólicos produziram menos eletricidade justamente em um período de alta demanda energética.

Especialistas do Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo (CREA) afirmam que, sem esse período excepcionalmente fraco de ventos, a capacidade renovável instalada provavelmente teria sido suficiente para manter a redução do uso do carvão.

Ao mesmo tempo, a produção hidrelétrica também não conseguiu compensar totalmente essa queda, enquanto a geração nuclear apresentou redução em alguns momentos do período.

Diante desse cenário, as termelétricas voltaram a assumir o papel de principal fonte de segurança do sistema elétrico, demonstrando que instalar uma enorme capacidade renovável não significa, necessariamente, que toda essa energia estará disponível sempre que for necessária.

O verdadeiro desafio vai além do clima e pode durar muitos anos

Embora as condições meteorológicas expliquem parte desse aumento, elas não contam toda a história.

Nos últimos anos, a China acelerou a construção de novas usinas a carvão como resposta às crises energéticas enfrentadas entre 2021 e 2022. Somente em 2025, cerca de 78 gigawatts de nova capacidade entraram em operação, o maior crescimento da última década.

Além disso, quase 300 gigawatts adicionais seguem em construção ou já possuem autorização para serem implantados.

Essas usinas foram apresentadas como uma garantia para evitar apagões em situações de seca, ondas de calor ou baixa geração das fontes renováveis.

O problema é que, uma vez construídas, essas instalações precisam operar para recuperar os investimentos realizados.

Muitas delas funcionam com contratos que garantem uma utilização mínima, independentemente da disponibilidade de energia solar ou eólica. Na prática, isso cria uma vantagem para o carvão, que continua sendo utilizado mesmo quando parte da geração limpa poderia atender à demanda.

Outro fator importante é o crescimento constante do consumo elétrico chinês.

A expansão da indústria, o aumento da frota de veículos elétricos, a utilização mais intensa de sistemas de climatização e o avanço dos centros de dados fazem a demanda crescer ano após ano.

Sempre que esse consumo aumenta mais rapidamente do que a produção renovável consegue acompanhar, as usinas a carvão entram novamente em operação para equilibrar o sistema.

Por isso, especialistas avaliam que o aumento observado em 2026 não representa um abandono da transição energética. A China continua liderando a instalação de novas usinas solares e eólicas e mantém a meta de ampliar significativamente a participação das fontes não fósseis até 2030.

No entanto, os acontecimentos deste ano deixaram uma lição importante. A transição para uma matriz energética mais limpa não depende apenas da instalação de novas fontes renováveis. Ela também exige redes elétricas mais modernas, sistemas de armazenamento em larga escala e mudanças nas regras que hoje favorecem a operação contínua das termelétricas. Enquanto essas adaptações não avançarem, o carvão continuará sendo a principal alternativa sempre que o vento diminuir, a chuva faltar ou a demanda crescer além do esperado.

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