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A cidade onde o carro nunca chegou e a vida acontece entre pedais e canoas

Em um recanto isolado da Amazônia, uma cidade brasileira aboliu os motores e transformou o cotidiano com soluções criativas. Lá, até ambulância tem pedal — e tudo funciona de forma surpreendente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em tempos de busca por alternativas sustentáveis nas grandes cidades, um município do Pará já vive há décadas um modelo de mobilidade único. Sem carros, motos ou ônibus, ele funciona sobre palafitas, bicicletas e barcos. O que parece impossível em outras regiões, em Afuá é parte da rotina — e o resultado impressiona.

Onde os carros não entram e o silêncio reina

A cidade onde o carro nunca chegou e a vida acontece entre pedais e canoas
© Pexels

Em Afuá, cidade localizada na Ilha de Marajó, no Pará, os motores foram oficialmente proibidos por lei municipal em 2002. Desde então, a circulação por ruas de asfalto deu lugar a passarelas de madeira suspensas, erguidas sobre áreas alagadiças da região amazônica. A ausência de veículos motorizados não só elimina o barulho das buzinas e o cheiro de gasolina, como também cria um ambiente onde a convivência é mais harmônica e tranquila.

Com as ruas funcionando como passarelas sobre palafitas, não há sinais de trânsito, placas, nem mesmo calçadas tradicionais. O espaço é compartilhado por pedestres e bicicletas em um fluxo espontâneo e ordenado. Em vez de disputas por vaga ou engarrafamentos, o deslocamento em Afuá se baseia na paciência, no respeito e no ritmo do pedal.

Soluções criativas para uma cidade sobre rodas sem motor

A cidade onde o carro nunca chegou e a vida acontece entre pedais e canoas
© Pexels

A bicicleta é muito mais que transporte em Afuá — ela é um pilar da infraestrutura urbana. Com cerca de 75% da mobilidade feita de forma não motorizada, os moradores adaptaram o veículo para todas as necessidades do cotidiano. Surgiram o bicitáxi, composto por duas bicicletas acopladas que formam uma espécie de quadriciclo; e a bicilância, uma ambulância a pedal equipada com maca e cilindro de oxigênio.

Além disso, serviços como coleta de lixo, transporte de carga e até manutenção urbana são realizados com triciclos adaptados. A polícia patrulha de bicicleta, e até cerimônias de casamento contam com a bike como meio de transporte oficial para os noivos. Os poucos veículos a motor — como barcos e viaturas — são restritos a situações emergenciais e operados exclusivamente por órgãos públicos.

Um modelo que chama atenção do mundo

Embora tenha nascido da necessidade, o modelo de Afuá atrai cada vez mais olhares de urbanistas e ambientalistas. Em meio ao debate global sobre mobilidade urbana sustentável, a cidade virou referência de como é possível organizar a vida sem depender de motores poluentes.

Além dos ganhos ecológicos, a vida sem carro estimula hábitos saudáveis. O exercício físico é parte da rotina dos moradores, contribuindo para o bem-estar e a saúde da população. Afuá mostra que, com criatividade e adaptação, é possível repensar a relação entre cidade e transporte — e ainda viver melhor com isso.

O rio como avenida e o remo como direção

Sem ligação terrestre direta, Afuá mantém seu fluxo com embarcações. Os rios são, na prática, as avenidas que conectam os bairros e possibilitam o acesso à cidade vizinha de Macapá, no Amapá, que fica a cerca de três horas de barco.

Essa geografia peculiar não limita Afuá, mas a molda. A cidade aprendeu a transformar os desafios da natureza em oportunidade, criando um cotidiano único onde o transporte é mais humano, silencioso e integrado ao meio ambiente. Um exemplo raro de que, às vezes, o futuro pode ser construído com a simplicidade do pedal e o balanço da maré.

[Fonte: Revista Forum]

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