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Ciência

A ciência acaba de mapear a poluição invisível do Atlântico: microplásticos e fibras viajam milhares de quilômetros e revelam pontos críticos no oceano

Um novo estudo revela como partículas minúsculas, muitas vezes invisíveis a olho nu, se espalham por quase todo o Atlântico. A pesquisa identifica regiões de maior acúmulo e mostra que a origem desses resíduos pode estar a milhares de quilômetros de distância — um desafio global para a preservação marinha.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A poluição dos oceanos ganhou um novo capítulo com a revelação de como fragmentos microscópicos derivados da atividade humana estão distribuídos ao longo do Atlântico. Esses resíduos, que incluem microplásticos e fibras têxteis, são transportados por correntes, ventos e até processos biológicos, formando uma rede de contaminação difícil de rastrear e ainda mais complexa de combater.

O estudo, conduzido pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Ambientais da Universitat Autònoma de Barcelona e publicado na revista Environmental Pollution, analisou quase 8 mil quilômetros do Oceano Atlântico.

Os resultados mostram que esses resíduos estão presentes em praticamente toda a extensão analisada — desde áreas tropicais até regiões temperadas. No entanto, as maiores concentrações foram registradas próximas ao equador, em frente ao Brasil e na faixa em torno dos 10° de latitude norte.

Segundo a pesquisadora Stéphanie Birnstiel, essas partículas podem viajar longas distâncias e se acumular até mesmo em regiões remotas, longe de qualquer costa. Isso evidencia que o problema não está restrito a áreas urbanas ou industriais, mas afeta todo o sistema oceânico.

O que são essas partículas e por que preocupam

Microplásticos No Seu Corpo (2)
© iStock

Os pesquisadores identificaram dois grupos principais de resíduos. O primeiro é formado por partículas extremamente pequenas, entre 10 e 315 micrômetros — muitas delas microplásticos. Para ter uma ideia, um fio de cabelo humano varia entre 17 e 181 micrômetros de diâmetro.

O segundo grupo inclui partículas maiores, acima de 315 micrômetros, compostas principalmente por fibras têxteis. Muitas dessas fibras são de origem celulósica, como o algodão, mas apresentam baixa capacidade de degradação devido aos tratamentos químicos e aditivos usados na indústria.

Apesar de menores, os microplásticos são mais abundantes e representam um risco significativo para a vida marinha, já que podem ser ingeridos por organismos e entrar na cadeia alimentar.

Por que o hemisfério norte é mais afetado

O estudo também identificou uma diferença importante entre os hemisférios. O Atlântico Norte apresenta concentrações maiores de resíduos em comparação com o sul.

De acordo com a pesquisadora Patrizia Ziveri, também do ICTA-UAB, esse padrão está diretamente ligado à maior densidade populacional e ao desenvolvimento industrial no hemisfério norte. Além disso, correntes oceânicas favorecem o acúmulo de partículas nessa região, criando verdadeiras zonas de concentração.

Como os cientistas rastrearam a origem da poluição

Para entender de onde vêm esses resíduos, os cientistas coletaram 52 amostras de água a cerca de 4,5 metros de profundidade, utilizando um sistema acoplado ao casco de um navio. As análises incluíram técnicas avançadas, como espectroscopia infravermelha e microscopia de alta precisão, que permitem identificar a composição química das partículas.

Além disso, o estudo utilizou modelos de simulação baseados em correntes oceânicas para rastrear o deslocamento dos resíduos. Os resultados indicam que grande parte das partículas presentes no Atlântico Sul tem origem na costa da África Ocidental, especialmente em áreas urbanas próximas ao mar.

Também foram identificadas contribuições vindas do norte do Brasil e da Península Ibérica em direção ao noroeste da África e às Ilhas Canárias.

Um problema sem fronteiras — e sem solução simples

Microplásticos 1
© PropositoyVida – X

Os resultados reforçam que a poluição por microplásticos não respeita fronteiras. Além de rios e áreas costeiras, partículas também podem ser transportadas pela atmosfera e depositadas em regiões oceânicas distantes.

Esse cenário torna o combate ao problema particularmente complexo. Mesmo regiões afastadas de centros urbanos podem sofrer com a contaminação, o que exige estratégias globais de monitoramento e redução de resíduos.

Ao mapear com precisão onde esses materiais se acumulam e de onde vêm, o estudo oferece uma base científica essencial para políticas ambientais mais eficazes. Ainda assim, os pesquisadores alertam: sem mudanças estruturais na produção e no descarte de materiais, a tendência é que a poluição continue se espalhando pelos oceanos do planeta.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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