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Tecnologia

A denúncia contra uma empresa de robôs que parece saída de um filme — e por que ela está fazendo barulho no Vale do Silício

Um engenheiro de segurança acusa a Figure AI, criadora de robôs humanoides, de ignorar riscos graves enquanto corre para lançar máquinas capazes de golpes com força “quebra-ossos”. A empresa nega tudo, mas a ação judicial reúne relatos tão dramáticos que parecem roteiro de Michael Clayton misturado com RoboCop. Aqui está o que a denúncia alega — e o que está em jogo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Uma nova ação judicial no Vale do Silício colocou holofotes sobre a corrida por robôs humanoides domésticos. O alvo: a Figure AI, startup que viralizou com seu robô Figure 01. O denunciante, um engenheiro de segurança recém-contratado, afirma que a empresa avançou com máquinas extremamente poderosas sem protocolos mínimos de segurança — e que foi demitido por alertar sobre os riscos. Embora a empresa negue as acusações, o processo descreve uma tensão crescente entre inovação e responsabilidade. Aqui está o que a denúncia narra.

O início da crise: falta de protocolos e alertas ignorados

Segundo o processo, Robert Gruendel — engenheiro de segurança que já trabalhou em P&D na Amazon — entrou na empresa acreditando no potencial dos robôs humanoides. Mas, logo na primeira semana, diz ter percebido que:

  • não havia procedimentos formais de segurança,

  • não existiam sistemas de registro de incidentes,

  • não havia avaliações de risco estruturadas,

  • e que o único responsável adicional pela segurança vinha do setor de chips — não de robótica.

A direção da empresa teria inicialmente acolhido as preocupações, aprovando um “roadmap de segurança”. Mas, rapidamente, o clima mudou.

Segundo o processo, o CEO Brett Adcock e o diretor de engenharia Kyle Edelberg teriam dito não gostar de “requisitos escritos de produto”, algo que Gruendel classificou como altamente anormal na engenharia de máquinas.

A pressão por comercializar o robô — e os alertas ignorados

Conforme relata o processo, no início de 2025 Adcock teria perguntado o que seria necessário para colocar os robôs no ambiente doméstico — algo que Gruendel considerava extremamente arriscado, dada a força e imprevisibilidade do modelo.

Ele então elaborou:

  • um novo plano de segurança,

  • publicou o documento internamente,

  • organizou uma reunião sobre o tema (que o CEO não compareceu).

Diante do silêncio, enviou uma versão resumida diretamente ao CEO — novamente, sem resposta.

O processo alega ainda que investidores viram uma versão robusta do plano, aprovada com entusiasmo, e que depois a liderança “rebaixou” o documento — uma mudança que Gruendel teria alertado que poderia até parecer fraude.

Testes assustadores: “duas vezes a força necessária para fraturar um crânio”

Em julho de 2025, Gruendel conduziu testes de impacto com o robô Figure 02. Segundo ele:

  • o robô se moveu em velocidade sobre-humana,

  • gerou força 20 vezes maior que o limiar de dor,

  • produziu energia mais que suficiente para fraturar um crânio adulto.

Um dia depois desse teste, paradoxalmente, ele recebeu um aumento de US$ 10 mil anuais e uma mensagem elogiando seu “crescimento e impacto”.

Mas, quando enviou um alerta pelo Slack ao CEO dizendo que o robô podia causar “lesões permanentes severas”, não recebeu nenhum retorno.
Tentou então avisar o engenheiro-chefe, pedindo medidas urgentes para afastar funcionários dos robôs — novamente, sem resposta.

Acidentes e o temor de um desastre

Segundo a ação, Gruendel passou a temer que incidentes já estivessem acontecendo, mas não havia sistema para rastreá-los. Ele cita um caso no qual:

Um robô teria errado um movimento, atingido uma geladeira e deixado um corte de 0,6 cm na porta de aço inox — quase acertando um funcionário.

Ele então teria insistido na instalação de um botão de parada de emergência e, embora houvesse início de cooperação, o projeto teria sido abandonado.
Outro recurso de segurança teria sido descartado simplesmente porque “não ficava bonito”.

O colapso interno e a demissão

Entre agosto e setembro de 2025, segundo o processo, a autoridade de Gruendel teria sido esvaziada. Por fim, ele foi demitido — pelo mesmo executivo que havia elogiado seu desempenho semanas antes.

A Figure AI diz que as alegações são falsas e que Gruendel foi desligado por “baixo desempenho”.

A corrida bilionária por robôs humanoides

A denúncia chega num momento em que:

  • a 1X Technologies viraliza com seu robô Neo,

  • iRobot’s Rodney Brooks critica o hype da robótica humanoide,

  • e investidores como Nvidia, Jeff Bezos e Microsoft despejam capital no setor.

A Figure AI, avaliada em US$ 39 bilhões, multiplicou seu valor em 15 vezes desde o ano anterior — alimentando temores de uma bolha e de pressões insustentáveis por resultados rápidos.

Inovação x segurança — um dilema que só deve crescer

Se o processo for verídico ou não, sua narrativa revela uma tensão real no Vale do Silício: a pressa para entregar robôs capazes de conviver com humanos, enquanto mecanismos de segurança ainda estão em evolução.

A história lembra que, antes de termos robôs domésticos fortes o suficiente para mover móveis ou preparar refeições, precisamos garantir que não possam — por falha ou por imprevisibilidade — colocar vidas em risco.

 

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