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Ciência

Macacos já se beijavam milhões de anos antes dos humanos, sugere novo estudo

Um estudo evolutivo com primatas indica que o beijo, longe de ser uma invenção humana, surgiu nos ancestrais dos grandes símios entre 21,5 e 16,9 milhões de anos atrás. A descoberta mostra que esse comportamento afetivo é muito mais antigo do que se pensava e oferece novas pistas sobre a evolução social dos primatas.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Beijar parece natural e até instintivo para os humanos, mas sua origem sempre foi envolta em mistério. Afinal, por que tantas espécies de primatas também se beijam, mesmo sem benefícios óbvios e com risco de transmitir doenças? Um estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior investigou essa questão pela primeira vez sob um olhar evolutivo — e descobriu que o beijo é muito mais antigo do que a nossa própria espécie.

O que é, afinal, um beijo?

Antes de reconstruir a história evolutiva do beijo, os pesquisadores precisaram defini-lo de forma aplicável a várias espécies. A definição escolhida foi pouco romântica, mas funcional: contato boca a boca não agressivo, sem transferência de alimento.

A partir dessa base, a equipe reuniu registros de comportamentos semelhantes em chimpanzés, bonobos e orangotangos — todos conhecidos por apresentarem “beijos” em interações sociais e sexuais.

Simulações revelam um comportamento ancestral

A bióloga evolutiva Matilda Brindle, da Universidade de Oxford, liderou um levantamento de dados de primatas de África, Europa e Ásia. Tratando o beijo como um “traço evolutivo”, os cientistas realizaram 10 milhões de simulações para estimar a probabilidade de que ancestrais comuns também se beijassem.

O resultado mais forte: o comportamento provavelmente emergiu entre 21,5 e 16,9 milhões de anos atrás, nos ancestrais dos grandes símios — o grupo que inclui humanos, chimpanzés, gorilas e orangotangos.

Como explicou o coautor Stuart West, a abordagem permite inferir comportamentos que não deixam fósseis, abrindo uma janela inédita para o estudo do comportamento social de espécies vivas e extintas.

E os neandertais? Eles provavelmente beijavam também

As simulações sugerem que neandertais e humanos modernos trocavam beijos, reforçando evidências de contato íntimo, troca de saliva e até cruzamentos entre as duas espécies.

Mas o estudo também destaca que o beijo está longe de ser universal na nossa própria cultura: como lembra a psicóloga Catherine Talbot, apenas 46% das sociedades humanas documentam o beijo romântico. Isso reacende a pergunta: o beijo é uma herança biológica antiga ou uma prática cultural que surge e desaparece conforme o contexto social?

Limitações e cautelas

Os autores reconhecem limites claros:

  • o estudo se baseia em registros pré-existentes, não em observações diretas;

  • dados sobre primatas fora dos grandes símios são escassos;

  • simulações dependem dos parâmetros escolhidos e podem variar.

Por isso, embora o quadro geral seja robusto, não se trata de uma prova absoluta — e sim de um cenário evolutivo altamente provável.

Um novo caminho para estudar comportamentos sociais

Apesar das limitações, o estudo oferece o primeiro quadro evolutivo abrangente do beijo em primatas. Também propõe uma definição padronizada para futuras pesquisas, algo crucial para comparar comportamentos entre espécies.

O achado sugere que, quando beijamos alguém, estamos repetindo um gesto que talvez tenha unido nossos ancestrais muito antes dos primeiros humanos caminharem sobre a Terra. Um comportamento resiliente que atravessou milhões de anos de evolução — e continua conosco até hoje.

 


 

 

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