A corrida pelo comando da NASA ganhou contornos de escândalo político. Um documento de 62 páginas, intitulado “Athena”, que detalha os planos do bilionário Jared Isaacman para transformar a agência, vazou à imprensa e desencadeou uma onda de acusações entre os principais nomes da liderança espacial norte-americana.
De acordo com o Ars Technica e o Politico, o texto seria um resumo do manifesto completo elaborado por Isaacman e seus assessores após sua indicação à chefia da NASA pelo presidente Donald Trump, no início do atual mandato. A proposta inclui uma reestruturação profunda, com cortes, fusões e o fortalecimento da parceria com o setor privado.
O plano “Athena” e a visão de Isaacman
Em declarações ao Politico, Isaacman disse que o objetivo do plano é “reorganizar e revitalizar a NASA, reafirmar a liderança americana no espaço e acelerar descobertas que mudem o mundo.”
O documento propõe operar a agência como uma empresa, com foco em eficiência e resultados. Entre as medidas mais polêmicas, estão a ideia de comprar dados de empresas privadas em vez de lançar satélites próprios, reduzir a participação da NASA em pesquisas climáticas — deixando-as sob responsabilidade de universidades — e encerrar o programa da estação lunar Gateway e o foguete Space Launch System (SLS) após apenas duas missões adicionais.
Essas propostas coincidem com as mudanças desejadas por Trump em seu orçamento para o ano fiscal de 2026, o que pode reforçar o apoio político de Isaacman junto à Casa Branca.
Um vazamento com cheiro de sabotagem
Mais controversa que o conteúdo do plano foi a forma como ele se tornou público. Fontes ouvidas pelo Ars Technica afirmam que o vazamento pode ter sido uma manobra de Sean Duffy, atual administrador interino da NASA e secretário de Transportes, para minar a possível renomeação de Isaacman e garantir a permanência dele próprio no cargo.
Segundo os relatos, apenas duas cópias do documento haviam sido distribuídas — uma para Duffy e outra para seu chefe de gabinete, Pete Meachum. Ainda assim, trechos do texto começaram a circular entre contratadas tradicionais da indústria aeroespacial, o que levantou suspeitas de que o material tenha sido compartilhado intencionalmente para enfraquecer Isaacman.
Duffy teria dito a aliados que gostaria de tornar-se administrador permanente da NASA e até mesmo incorporar a agência ao Departamento de Transportes, segundo reportagens da CNN. A porta-voz da NASA, Bethany Stevens, negou as alegações, afirmando que Duffy “nunca expressou interesse em manter o cargo.”
Isaacman, por sua vez, publicou uma nota no X (antigo Twitter) defendendo o plano: “Nunca favorecemos um fornecedor, nem propusemos o fechamento de centros ou o cancelamento de programas antes do cumprimento de seus objetivos. O documento foi escrito como um ponto de partida para dar à NASA, aos parceiros internacionais e ao setor privado as melhores chances de sucesso.”
Um embate político pela direção do espaço
A disputa ganhou força desde que Trump retirou a nomeação de Isaacman em maio, após críticas sobre suas doações a campanhas democratas e sua proximidade com Elon Musk. O presidente nomeou Duffy como interino em julho, mas Isaacman reapareceu como favorito depois de reunir apoio entre parlamentares e se encontrar pessoalmente com Trump para discutir uma nova indicação, segundo a CNBC.
Nos bastidores, a rivalidade entre os dois virou uma luta de poder pela identidade e o futuro da NASA. De um lado, Isaacman defende uma gestão empresarial e privatizada, com ênfase na exploração comercial e na parceria com empresas como a SpaceX. Do outro, Duffy busca consolidar sua influência dentro da estrutura governamental, apresentando-se como opção mais “institucional”.
O futuro da NASA em jogo
As propostas do plano Athena dividem a comunidade científica. Alguns especialistas reconhecem a necessidade de modernizar a agência e torná-la mais ágil, enquanto outros alertam que a abordagem corporativa subestima a complexidade da pesquisa científica e a importância do investimento público.
Independentemente de quem vença essa batalha, o episódio revela que o futuro da NASA está tão sujeito à política terrestre quanto às leis da gravidade. E, desta vez, o maior desafio pode não estar nas estrelas — mas nos corredores de Washington.