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Ciência

A estrela que sumiu, voltou a brilhar e bagunçou a astrofísica

Ela parecia ter apagado de vez. Depois de anos emitindo radiação intensa, uma estrela distante simplesmente “sumiu” do radar dos astrônomos. Mas o universo adora plot twists: o objeto voltou a brilhar com força, acelerou sua rotação e agora está forçando cientistas a repensarem como estrelas morrem — e como algumas insistem em sobreviver ao caos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um farol estranho em outra galáxia

O protagonista dessa história atende pelo nome pouco poético de NGC 7793 P13, ou apenas P13. Ele fica na galáxia NGC 7793, a cerca de 10 milhões de anos-luz da Terra, e pertence a uma categoria rara chamada fontes ultraluminosas de raios-X.

Na prática, isso significa que P13 brilha absurdamente mais do que o esperado para um objeto desse tipo. Astrônomos acreditam que ele seja alimentado por um processo extremo chamado acrétion supercrítica — quando grandes quantidades de gás caem sobre uma estrela de nêutrons, liberando energia além dos limites clássicos previstos pela física.

O apagão que intrigou os cientistas

Ao analisar dados de vários telescópios espaciais coletados entre 2011 e 2024, pesquisadores perceberam algo estranho: P13 entra em um ciclo de cerca de 10 anos em que seu brilho em raios-X despenca quase até desaparecer… e depois volta com tudo.

O momento mais dramático aconteceu entre 2020 e 2021, quando o fluxo de raios-X atingiu um dos níveis mais baixos já registrados. Para todos os efeitos, a estrela parecia ter “sumido”. Mas não era o fim da história.

O retorno explosivo

A partir de 2022, P13 começou a se reerguer. Em 2023, seu brilho já era mais de 100 vezes maior do que no ponto mínimo. Em 2024, continuava intenso. O estudo que descreve esse comportamento foi publicado no The Astrophysical Journal Letters.

Mas o brilho não foi a única surpresa. Quando a estrela voltou a emitir pulsos regulares — sinais típicos de um pulsar, uma estrela de nêutrons que gira rapidamente —, os astrônomos notaram algo inesperado.

A estrela voltou… girando mais rápido

Durante o período de apagão, os pulsos de P13 desapareceram completamente. Quando reapareceram, veio o choque: a estrela estava acelerando sua rotação duas vezes mais rápido do que antes.

Esse fenômeno, chamado spin-up, costuma indicar quanta matéria a estrela está absorvendo. Quanto mais gás cai, mais rápido ela gira. Só que, no caso de P13, essa relação não bate com os modelos conhecidos.

Algo mudou no mecanismo interno da estrela durante o período de baixa luminosidade.

Uma coluna invisível de energia

O segredo pode estar na forma como o gás atinge a estrela. Em estrelas de nêutrons, a matéria não cai de maneira uniforme. Ela é guiada pelos campos magnéticos até os polos, formando uma coluna de acreção — uma estrutura que produz os raios-X observados.

Os dados indicam que essa coluna muda de altura ao longo do tempo. Quando o brilho diminui, a coluna parece “encolher”, dificultando a observação das regiões mais quentes. Isso explicaria por que, no auge do apagão, os pulsos simplesmente desapareceram.

Outro detalhe curioso: quanto mais brilhante P13 fica, menos evidentes se tornam suas pulsações. Essa anticorrelação reforça a ideia de que a geometria da coluna muda conforme a quantidade de gás disponível.

Por que isso muda tudo

Apesar dos avanços, P13 não se comporta como deveria. A relação entre brilho e aceleração da rotação foge completamente do padrão esperado. Para os cientistas, isso é um sinal claro de que os modelos atuais de acreção supercrítica estão incompletos.

Na prática, P13 virou um laboratório cósmico. Ele permite estudar como a matéria se comporta sob gravidade extrema, campos magnéticos intensos e energias impossíveis de reproduzir na Terra.

Um lembrete do quanto ainda sabemos pouco

O caso da estrela que “sumiu” e voltou mais forte mostra que o universo ainda guarda surpresas enormes. Entender objetos como P13 não é só curiosidade astronômica — é fundamental para ampliar os limites da física conhecida.

E fica o alerta: quando achamos que já entendemos como estrelas morrem, o cosmos aparece para provar que ainda estamos só começando a aprender.

[Fonte: Correio Braziliense]

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