A ideia de universos paralelos costuma aparecer em filmes, séries e teorias conspiratórias. Mas, para alguns físicos, ela pode estar muito mais próxima da realidade científica do que parece.
O físico croata Vlatko Vedral, professor da Universidade de Oxford e um dos principais nomes da teoria da informação quântica, defende uma interpretação da mecânica quântica que coloca versões alternativas de nós mesmos no centro da discussão sobre realidade, destino e livre-arbítrio.
Em entrevista à revista Popular Mechanics, Vedral explicou como interações microscópicas constantes poderiam gerar diferentes “linhas de realidade”, onde todas as possibilidades possíveis acontecem simultaneamente.
A proposta não envolve espiritualidade, misticismo ou consciência cósmica. Pelo contrário: a ideia tenta retirar o ser humano do centro da física e explicar o universo apenas por meio de interações materiais entre partículas.
O que é o famoso “efeito do observador”

Grande parte da discussão nasce de um dos conceitos mais intrigantes da física quântica: o efeito do observador.
Tradicionalmente, algumas interpretações sugerem que partículas subatômicas existem em múltiplos estados ao mesmo tempo até serem observadas. Nesse momento, todas as possibilidades “colapsariam” em uma única realidade.
Durante décadas, muita gente interpretou isso quase como se a consciência humana tivesse poderes especiais sobre o universo.
Vedral discorda completamente dessa visão.
Segundo ele, o colapso não acontece porque uma pessoa observa algo conscientemente. O que realmente importa são as interações físicas entre partículas.
Em outras palavras: o universo não muda porque alguém olha para ele. Ele muda porque tudo está constantemente interagindo o tempo todo.
Cada interação criaria novas versões da realidade
Para explicar a ideia, Vedral utiliza exemplos simples envolvendo fótons — partículas de luz.
Imagine um fóton atingindo a lente de um óculos escuros.
Em uma possibilidade, a partícula atravessa a lente e chega aos olhos da pessoa. Em outra, ela é refletida e nunca entra em contato com o observador.
Segundo certas interpretações da mecânica quântica, ambas as possibilidades aconteceriam simultaneamente em diferentes ramificações da realidade.
Cada colisão entre partículas criaria novas bifurcações do universo.
E isso ocorreria constantemente.
Toda interação física — um átomo colidindo com outro, um fóton refletindo em uma superfície, elétrons mudando de estado — poderia gerar múltiplas versões paralelas da realidade coexistindo ao mesmo tempo.
As versões alternativas de você mesmo

É aqui que a hipótese fica ainda mais perturbadora.
Se cada possibilidade cria uma nova ramificação do universo, então existiriam incontáveis versões alternativas de cada pessoa tomando decisões diferentes em realidades paralelas.
Em um universo, você escolheu um caminho profissional. Em outro, tomou decisões completamente diferentes. Em um, encontrou certas pessoas. Em outro, nunca cruzou com elas.
Segundo Vedral, embora só tenhamos consciência de uma linha específica da realidade, as outras versões continuariam existindo paralelamente.
O físico sugere inclusive que, sob condições extremamente específicas e raras, essas diferentes ramificações poderiam exercer algum tipo de influência quântica indireta umas sobre as outras.
Não como uma comunicação consciente entre universos, mas como parte de um sistema global de entrelaçamento quântico.
Isso muda a ideia de livre-arbítrio?
A teoria levanta inevitavelmente uma questão desconfortável: se todas as possibilidades acontecem simultaneamente, até que ponto existe realmente escolha?
Nessa visão, o destino deixaria de ser algo místico ou predeterminado por forças sobrenaturais. Ele seria simplesmente o resultado inevitável das interações quânticas que acontecem a cada instante no universo.
Cada segundo produziria incontáveis bifurcações microscópicas da realidade.
E nós apenas experimentaríamos uma delas.
Vedral argumenta que isso não elimina completamente o livre-arbítrio, mas muda profundamente a maneira como entendemos decisões, consciência e identidade.
Ciência real — mas ainda altamente debatida
Apesar de fascinante, a hipótese continua sendo altamente teórica e alvo de debates intensos dentro da própria física.
A interpretação de “muitos mundos”, associada a essas ideias, existe há décadas e ainda divide cientistas. Alguns consideram o modelo matematicamente consistente. Outros acreditam que ele levanta problemas filosóficos difíceis de testar experimentalmente.
Mesmo assim, a discussão revela algo importante: a mecânica quântica continua sendo uma das áreas mais misteriosas da ciência moderna.
E talvez o aspecto mais estranho dessa história seja justamente este: as leis fundamentais do universo parecem muito menos intuitivas do que a experiência cotidiana faz parecer.
[ Fonte: National Geographic ]