Pouca gente percebe, mas uma das regiões mais estratégicas do Brasil vem sofrendo uma transformação silenciosa nas últimas décadas. Conhecido como berço das águas e guardião de biodiversidade única, o Cerrado enfrenta uma pressão ambiental crescente. Agora, uma ampla revisão científica publicada em revista internacional traz números que acendem um alerta: o bioma pode estar se aproximando de um ponto crítico.
O bioma que mais perdeu vegetação no país

O Cerrado ocupa cerca de 24% do território brasileiro e é classificado como um “Ecodomínio” — termo usado para designar grandes áreas com relativa uniformidade de clima, relevo e biodiversidade. É o segundo maior da América do Sul e abriga nascentes que abastecem algumas das principais bacias hidrográficas do país.
Apesar dessa relevância, mais de 55% da vegetação nativa já foi perdida. A área devastada ultrapassa um milhão de quilômetros quadrados, sobretudo nas últimas cinco décadas. A conversão de áreas naturais em lavouras, pastagens e expansões urbanas lidera esse processo.
Mesmo com uma leve redução recente nas taxas anuais de desmatamento, o acumulado continua crescendo. Hoje, o Cerrado é o Ecodomínio brasileiro que mais perdeu cobertura original. A fragmentação da paisagem compromete a fauna, a flora e o funcionamento dos recursos hídricos.
Entre os principais vetores da degradação estão a agricultura intensiva, mineração, expansão urbana e especulação fundiária. Grandes áreas de savana deram lugar a monoculturas e pastagens com espécies exóticas, reduzindo a diversidade e enfraquecendo o equilíbrio ecológico.
O impacto não se restringe à biodiversidade. Ele alcança o clima, o solo e a segurança hídrica de milhões de pessoas.
A “floresta invertida” que guarda carbono no subsolo
Uma das características mais marcantes do Cerrado é ser conhecido como “floresta invertida”. Diferentemente das florestas tropicais úmidas, onde o carbono está concentrado na parte aérea das árvores, cerca de 90% do carbono do Cerrado encontra-se armazenado no subsolo.
Isso ocorre graças a sistemas radiculares profundos e densos, que funcionam como reservatórios naturais de carbono e reguladores de água. Quando a vegetação é removida, o solo perde capacidade de retenção hídrica e de absorção de carbono, agravando impactos climáticos.
Especialistas alertam que nem toda iniciativa de restauração resolve o problema. O plantio indiscriminado de árvores exóticas em áreas naturalmente abertas pode comprometer a funcionalidade ecológica do bioma. A recuperação precisa respeitar as características originais do ambiente e priorizar bancos de sementes nativos.
Essa complexidade torna a conservação do Cerrado um desafio que vai além de simplesmente reflorestar.
Um mosaico de paisagens sob pressão crescente
O Cerrado não é homogêneo. É formado por campos, savanas, matas, veredas e áreas rochosas, cada uma com espécies específicas e diferentes níveis de vulnerabilidade.
Os Campos Rupestres, por exemplo, ocupam áreas restritas e concentram espécies exclusivas. Sofrem forte pressão da mineração, da invasão de plantas exóticas e do aumento de incêndios. Já as savanas, mais extensas, foram amplamente convertidas em áreas agrícolas.
O fogo também desempenha papel crítico. Embora parte da vegetação seja adaptada a queimadas naturais, muitos incêndios atuais são provocados por ação humana e ocorrem fora do regime ecológico adequado, causando degradação acumulativa.
A crise hídrica é outro ponto sensível. O Cerrado abastece grandes bacias e aquíferos estratégicos. Agricultura irrigada, uso intensivo de agrotóxicos e construção de barragens vêm reduzindo o fluxo dos rios e degradando áreas essenciais para a regulação da água.
Paradoxalmente, setores como agronegócio e energia, que pressionam o bioma, dependem diretamente desses recursos naturais. Sem proteção adequada, o risco se estende à economia regional e à segurança hídrica nacional.
Atualmente, existem 706 Unidades de Conservação no Cerrado, cobrindo apenas 8% da área total. Menos de 3% está sob proteção integral. O estudo sugere ampliar áreas protegidas, aumentar a Reserva Legal para pelo menos 35% e adotar mecanismos de rastreabilidade na produção agrícola.
O objetivo é claro: desvincular crescimento econômico de destruição ambiental e evitar um colapso que afetaria clima, água e produção no Brasil.
[Fonte: Olhar digital]