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Ciência

O grande segredo no centro da Terra: estudo revela que o núcleo pode esconder até 45 vezes mais hidrogênio que todos os oceanos

Uma nova pesquisa sugere que o coração metálico do planeta pode abrigar a maior reserva de hidrogênio já estimada. A descoberta desafia teorias sobre a origem da água na Terra e muda a forma como entendemos sua formação e evolução ao longo de bilhões de anos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, aprendemos que os oceanos são o grande reservatório de água do planeta, cobrindo cerca de 70% da superfície terrestre. Mas uma nova pesquisa indica que o verdadeiro gigante pode estar muito mais fundo — a quase 3 mil quilômetros sob nossos pés. Cientistas estimam que o núcleo da Terra pode conter entre nove e até 45 vezes mais hidrogênio do que todos os oceanos combinados.

O núcleo como cofre de hidrogênio

Pesquisadores descobriram uma mudança surpreendente no comportamento do núcleo da Terra que pode ter implicações diretas no campo magnético, nos terremotos e até no clima
© https://x.com/DailyLoud/

O estudo foi publicado na revista Nature Communications e aponta que o hidrogênio pode representar entre 0,36% e 0,7% do peso total do núcleo terrestre. Embora pareça pouco, trata-se de uma quantidade colossal quando se considera a massa gigantesca dessa região composta principalmente por ferro e níquel.

O principal autor do trabalho é Dongyang Huang, professor assistente da Escola de Ciências da Terra e do Espaço da Universidade de Pequim. Segundo ele, se os cálculos estiverem corretos, a maior parte da água da Terra teria sido incorporada já nas fases iniciais de formação do planeta — e não trazida posteriormente por cometas, como sugerem algumas hipóteses clássicas.

“O núcleo teria armazenado a maior parte da água no primeiro milhão de anos da história da Terra”, explicou Huang. Hoje, segundo o pesquisador, a superfície — onde a vida existe — conteria apenas a menor fração desse hidrogênio total.

Como medir algo que não podemos ver

Estudar o núcleo da Terra é um desafio enorme. Ele é inacessível diretamente e suas condições extremas de pressão e temperatura são difíceis de reproduzir em laboratório. Além disso, o hidrogênio é o elemento químico mais leve da tabela periódica, o que torna sua detecção ainda mais complexa.

Pesquisas anteriores utilizavam difração de raios X para analisar a estrutura de cristais de ferro, tentando inferir a presença de hidrogênio pela expansão da rede cristalina. Mas os resultados variavam drasticamente, indo de 0,1 “oceano” até mais de 120 “oceanos” equivalentes em hidrogênio.

Para superar essas limitações, a equipe chinesa adotou uma abordagem diferente. Eles fundiram ferro com lasers dentro de uma célula de alta pressão chamada célula de bigorna de diamante — equipamento capaz de simular as condições do núcleo terrestre.

Em seguida, aplicaram uma técnica chamada tomografia por sonda atômica. As amostras foram moldadas em estruturas microscópicas, com cerca de 20 nanômetros de diâmetro, submetidas a alta voltagem e analisadas átomo por átomo. O método permite reconstruir imagens tridimensionais e medir a composição química em escala atômica.

Interações químicas que explicam o passado

Nucleo Terra Rotacion
© Resource Database – Unsplash

Os experimentos mostraram que, no ferro sob condições extremas, o hidrogênio interage fortemente com silício e oxigênio. A proporção encontrada foi aproximadamente de um átomo de hidrogênio para cada átomo de silício.

Ao combinar esses dados com estimativas já existentes sobre a quantidade de silício no núcleo, os cientistas conseguiram calcular uma nova faixa para o conteúdo de hidrogênio.

A pesquisa também sugere que essas interações químicas podem ter desempenhado um papel importante na transferência de calor do núcleo para o manto — processo essencial para a geração do campo magnético da Terra, que protege o planeta da radiação solar e é considerado fundamental para a habitabilidade.

Incertezas e próximos passos

Apesar do avanço metodológico, o estudo ainda carrega incertezas. Parte do hidrogênio pode ter escapado das amostras durante a descompressão no laboratório, o que poderia significar que a quantidade real no núcleo seja ainda maior.

Kei Hirose, pesquisador da Universidade de Tóquio que não participou do estudo, já havia estimado que o hidrogênio poderia representar entre 0,2% e 0,6% da massa do núcleo — valores que em alguns casos superam os novos cálculos.

Rajdeep Dasgupta, da Universidade Rice, destaca que entender a origem e a distribuição do hidrogênio é essencial para compreender a formação planetária e a evolução da vida.

Se confirmado, o estudo reforça a hipótese de que o hidrogênio — e, consequentemente, a água — foi incorporado à Terra desde suas primeiras fases de crescimento, a partir de gás da nebulosa solar e também de impactos com asteroides e cometas.

Mais do que uma curiosidade geológica, o achado reposiciona o núcleo como o maior reservatório de um elemento essencial à vida. E lembra que, mesmo após séculos de ciência, o interior da Terra ainda guarda segredos capazes de redefinir nossa própria origem.

 

[ Fonte: CNN ]

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