Acreditamos enxergar o mundo como ele é, mas o que vemos é apenas o que o cérebro nos permite perceber. A neurociência moderna revela que nossa mente não registra a realidade — ela a interpreta, edita e, muitas vezes, distorce. Em entrevista recente, o psiquiatra forense Miguel Gaona explicou como essa “fábrica de ilusões” molda nossas crenças, memórias e emoções, e por que reconhecer o engano pode ser o primeiro passo para viver com mais lucidez.
O cérebro: o grande ilusionista
Gaona resume com uma frase provocadora: “Vivemos trancados dentro de um crânio.”
Nossos sentidos são apenas mensageiros imperfeitos, e o cérebro é quem monta o quebra-cabeça. O problema é que ele preenche lacunas, inventa detalhes e cria uma realidade coerente, mas não necessariamente verdadeira.
Segundo o psiquiatra, a mente não reproduz o mundo — ela o fabrica. É por isso que podemos ser manipulados com facilidade: basta fazer alguém acreditar no que vê.
“Na mágica, sabemos que há um truque”, explica. “Mas quando não o sabemos, o engano se torna perigoso.”
Na era da inteligência artificial, essa fronteira entre o real e o falso se torna ainda mais frágil. O cérebro, programado para confiar nos sentidos, está vulnerável a ilusões digitais.
Memórias falsas, verdades parciais
A memória, diz Gaona, é uma das maiores fontes de autoengano.
“Lembrar é reconstruir”, explica. E toda reconstrução implica alteração. Emoções, tempo e contexto reescrevem o passado.
Ele cita casos forenses em que testemunhas relataram versões opostas de um mesmo fato — e todas acreditavam estar dizendo a verdade.
Essa flexibilidade mental explica por que nos apegamos a lembranças que nunca existiram e como a memória emocional distorce os acontecimentos. A neurociência confirma o antigo ditado de Santa Teresa: “A cabeça é a louca da casa”.
Emoções: brilham, mas enganam
Para Gaona, sentir não é o mesmo que compreender. As emoções, diz ele, são como fogos de artifício: intensas, breves e, às vezes, perigosas.
“Não devemos obedecer às emoções, mas observá-las”, recomenda.
Sua regra prática: nunca agir sob forte impulso. Dê às emoções um tempo de quarentena mental antes de decidir.
O equilíbrio, segundo ele, depende de uma vida sustentada por múltiplos pilares — saúde, propósito, relações e estabilidade econômica. Apoiar-se apenas em um deles é arriscar-se à queda.
Reprogramar a mente para ver melhor
O cérebro é plástico, capaz de aprender e desaprender.
Atividades como estudar, tocar um instrumento ou praticar um novo idioma ajudam a reconfigurar padrões mentais.
Mas, lembra Gaona, eliminar hábitos nocivos é mais difícil do que adquirir novos. Por isso, o autoconhecimento é a ferramenta central da saúde mental.
A base, no entanto, é simples: dormir bem, alimentar-se corretamente, mover o corpo e respeitar o ritmo natural.
Estudos de Harvard e Columbia comprovam que caminhar 40 minutos por dia reduz sintomas depressivos e melhora a percepção de bem-estar.
Quando a ciência encontra a alma
Nos últimos anos, Gaona passou a explorar o elo entre neurociência e espiritualidade.
Em sua experiência clínica, observou que a fé e a conexão interior podem aliviar dores onde a medicina falha.
Negar essa dimensão, afirma, é negar parte essencial da mente humana.
“Talvez a realidade sólida em que acreditamos”, conclui, “seja apenas mais uma ilusão dentro do imenso teatro da mente.”