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Ciência

O CERN encontrou uma partícula que não deveria se comportar assim: a descoberta pode obrigar físicos a revisar parte das teorias sobre a matéria

Uma observação realizada no maior acelerador de partículas do mundo revelou um comportamento inesperado em uma partícula extremamente rara. Embora ainda não represente uma revolução confirmada na física, o resultado está chamando a atenção dos cientistas por sugerir que algumas interações fundamentais podem não ocorrer exatamente como os modelos atuais preveem.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A física moderna é construída sobre teorias extremamente bem-sucedidas. Modelos matemáticos desenvolvidos ao longo de décadas permitem prever com impressionante precisão o comportamento das partículas que formam toda a matéria do universo. Ainda assim, de tempos em tempos, surgem resultados experimentais que desafiam essas previsões e obrigam os cientistas a olhar mais de perto para aquilo que acreditavam compreender.

Foi exatamente isso que aconteceu em uma nova pesquisa conduzida pela Colaboração ATLAS, um dos maiores experimentos científicos do Grande Colisor de Hádrons (LHC), do CERN.

Os pesquisadores conseguiram detectar uma versão altamente energética de uma partícula conhecida como méson Bc*+, uma estrutura extremamente rara formada por dois quarks pesados. O problema é que sua massa parece não coincidir perfeitamente com aquilo que as teorias atuais preveem.

Embora a discrepância seja pequena, ela pode esconder pistas importantes sobre o funcionamento das forças fundamentais da natureza.

Uma partícula rara e valiosa para a física

Os mésons são partículas compostas por um quark e um antiquark, mantidos unidos pela força nuclear forte — a interação responsável por manter unidos os componentes do núcleo atômico.

O méson Bc*+ é particularmente interessante porque combina dois dos quarks mais pesados conhecidos pela ciência: o quark encanto e o antiquark fundo.

Essa característica torna a partícula um excelente laboratório natural para estudar fenômenos quânticos complexos.

Como seus componentes possuem massas muito elevadas em comparação com as partículas que formam prótons e nêutrons, os cálculos teóricos tornam-se mais precisos e as comparações entre teoria e experimento ficam mais rigorosas.

Foi justamente nessa comparação que surgiu a surpresa.

O detalhe que chamou a atenção dos cientistas

Hermanos
© CERN / Claudia Marcelloni

A nova observação permitiu medir com alta precisão a diferença de massa entre o méson Bc*+ e sua versão fundamental, conhecida simplesmente como Bc+.

Os dados obtidos pelos detectores do LHC indicaram um valor equivalente a aproximadamente 28 vezes a massa de um quark up, um dos componentes básicos da matéria comum.

O resultado, porém, não coincide exatamente com as previsões produzidas pelos modelos matemáticos mais sofisticados disponíveis atualmente.

Segundo os pesquisadores, a diferença observada não é suficientemente grande para derrubar as teorias existentes, mas é relevante o bastante para levantar dúvidas sobre alguns aspectos da força nuclear forte.

Essa é a interação responsável por manter os quarks unidos dentro das partículas subatômicas.

O desafio de estudar algo que desaparece instantaneamente

Observar diretamente o méson Bc*+ é impossível.

A partícula existe por uma fração minúscula de segundo antes de se desintegrar em outros componentes.

Por isso, os cientistas precisam reconstruir sua existência analisando os rastros deixados pelos produtos dessa desintegração.

No caso do Bc*+, o processo é particularmente complicado.

Durante sua transformação, a partícula emite um fóton de baixa energia que rapidamente se converte em um elétron e um pósitron. Além disso, surgem múons, antímúons e um neutrino, uma das partículas mais difíceis de detectar no universo.

Como os neutrinos quase não interagem com a matéria, eles atravessam os detectores praticamente sem deixar sinais.

Reconstruir todo esse quebra-cabeça exige técnicas estatísticas extremamente sofisticadas.

Uma estratégia incomum trouxe resultados

Normalmente, físicos evitam analisar processos de desintegração que envolvem neutrinos devido à enorme complexidade matemática.

Entretanto, neste caso específico, a rota de desintegração contendo neutrinos era cerca de vinte vezes mais frequente do que as alternativas tradicionalmente utilizadas.

Isso levou a equipe do ATLAS a desenvolver novas metodologias de análise para extrair informações confiáveis desses eventos.

O esforço valeu a pena.

A enorme quantidade de dados coletados permitiu identificar a partícula com um nível de precisão sem precedentes.

Estamos diante de uma nova física?

Partículas Quânticas
© ATLAS-PHO-EVENTS-2014-015-1 / CERN

A resposta curta é: ainda não.

Na física de partículas, pequenas discrepâncias surgem ocasionalmente e muitas acabam desaparecendo quando novas medições são realizadas.

Por isso, os próprios autores adotam cautela ao interpretar os resultados.

No entanto, o estudo adiciona mais uma peça a um cenário cada vez mais interessante, no qual diferentes experimentos têm encontrado pequenas tensões entre observações e previsões teóricas.

Se futuras análises confirmarem que a diferença observada é real, os cientistas poderão precisar refinar os modelos que descrevem a força nuclear forte ou até considerar novos fenômenos físicos ainda desconhecidos.

O próximo passo do Grande Colisor

A descoberta reforça a importância das próximas campanhas experimentais do LHC.

Com detectores cada vez mais precisos e volumes crescentes de dados, os pesquisadores terão a oportunidade de verificar se o comportamento observado no méson Bc*+ representa apenas uma flutuação estatística ou um sinal genuíno de algo novo.

Por enquanto, o resultado não derruba nenhuma lei da física. Mas ele lembra algo que a ciência aprende repetidamente: mesmo nas escalas mais microscópicas do universo, a natureza ainda guarda segredos capazes de surpreender os melhores modelos matemáticos já criados pela humanidade.

 

[ Fonte: National Geographic ]

 

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