A inteligência artificial se tornou parte da rotina de milhões de pessoas. Ela escreve textos, cria imagens, responde perguntas e ajuda empresas a automatizar tarefas em uma velocidade impressionante. Mas por trás das respostas geradas em segundos existe uma infraestrutura gigantesca que consome enormes quantidades de energia e recursos naturais. Entre eles está um elemento fundamental para a vida humana e cada vez mais escasso em diversas regiões do planeta: a água.
O recurso essencial escondido por trás de cada resposta da IA

Quando uma pessoa faz uma pergunta a um chatbot ou solicita a criação de um texto, a resposta parece surgir instantaneamente. No entanto, esse processo depende de centros de dados repletos de servidores funcionando continuamente.
Esses equipamentos geram calor em grande escala. Para evitar superaquecimentos que poderiam comprometer os sistemas, empresas utilizam estruturas de resfriamento que frequentemente dependem de grandes volumes de água.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Riverside, estimaram que a produção de um texto simples com cerca de 100 palavras pode consumir aproximadamente 519 mililitros de água quando são considerados tanto os gastos diretos de refrigeração quanto o consumo indireto associado à geração de eletricidade.
Embora o valor pareça pequeno isoladamente, a situação muda quando bilhões de solicitações são processadas diariamente em todo o mundo.
O desafio está justamente na escala. Cada interação individual representa uma fração mínima do consumo total, mas a soma de milhões de usuários utilizando sistemas de inteligência artificial simultaneamente cria uma demanda crescente por recursos hídricos.
Por que os centros de dados precisam de tanta água

Os centros de processamento que sustentam a inteligência artificial moderna operam com milhares de chips especializados funcionando sem interrupção.
Esses componentes podem dissipar centenas de watts de energia cada um. Em grandes operações de treinamento de modelos avançados, dezenas de milhares desses processadores trabalham ao mesmo tempo durante semanas ou meses.
Todo esse calor precisa ser removido. Um dos métodos mais utilizados é o resfriamento evaporativo, no qual a água absorve o calor produzido pelos equipamentos e parte dela evapora para a atmosfera.
Segundo especialistas, uma parcela significativa da água utilizada nesses sistemas é perdida permanentemente durante o processo de evaporação.
A nova geração de centros de dados voltados especificamente para inteligência artificial também apresenta características que ampliam o problema. Essas instalações são maiores, concentram mais equipamentos e operam com densidades térmicas muito superiores às observadas em estruturas tradicionais de computação em nuvem.
Em alguns casos, o consumo diário de água de um único complexo tecnológico pode rivalizar com o de pequenas cidades.
Os números que estão preocupando pesquisadores
Relatórios ambientais divulgados por grandes empresas de tecnologia mostram uma tendência clara de crescimento no consumo hídrico.
Nos últimos anos, companhias como Google, Microsoft e Meta registraram aumentos significativos no uso de água em suas operações.
Pesquisadores estimam que a demanda global de água associada à inteligência artificial poderá alcançar entre 4,2 e 6,6 bilhões de metros cúbicos por ano até 2027.
Os números impressionam porque equivalem ao consumo anual de água de países inteiros. Em alguns cenários projetados, a infraestrutura global de IA poderia utilizar um volume próximo à metade de toda a retirada anual de água do Reino Unido.
Além do consumo direto para refrigeração, existe um componente ainda maior frequentemente ignorado: a água utilizada na geração da eletricidade que alimenta os centros de dados.
Estudos indicam que esse consumo indireto pode superar em várias vezes a quantidade utilizada diretamente nos sistemas de resfriamento.
O impacto que já aparece em regiões afetadas pela seca
Uma das maiores preocupações dos especialistas é a localização de muitos desses centros tecnológicos.
Diversos projetos estão sendo construídos em áreas que já enfrentam escassez hídrica ou períodos prolongados de seca. Casos recentes envolvendo instalações planejadas ou em operação no Chile, México, Uruguai, Espanha e estados do sudoeste dos Estados Unidos ampliaram o debate sobre o uso dos recursos locais.
Em algumas dessas regiões, comunidades já convivem com restrições no abastecimento de água enquanto grandes projetos tecnológicos buscam garantir acesso a aquíferos e sistemas municipais.
Pesquisadores alertam que a expansão acelerada da inteligência artificial está acontecendo em um momento em que a escassez global de água também cresce rapidamente. Projeções internacionais indicam que uma parcela significativa da população mundial poderá enfrentar estresse hídrico severo até o final da década.
Ao mesmo tempo, a própria inteligência artificial possui potencial para ajudar a enfrentar esses desafios. Sistemas avançados podem melhorar previsões climáticas, otimizar o uso da água na agricultura e auxiliar na gestão de recursos hídricos.
A questão central, segundo os especialistas, é saber se os benefícios futuros serão capazes de compensar o aumento do consumo atual. Por enquanto, a resposta ainda permanece em aberto.
[Fonte: Space daily]