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A morte mais polêmica de Andor não foi sobre representatividade queer — e os criadores explicam o porquê

O falecimento inesperado de Cinta Kaz gerou reações intensas entre fãs, especialmente por seu papel como personagem LGBTQIA+ importante em Star Wars. Mas segundo os criadores de Andor, a decisão foi narrativa — e dolorosamente inevitável.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando a missão em Ghorman deu errado na segunda temporada de Andor, bastou um erro para transformar o roubo em tragédia. Cinta Kaz, rebelde determinada e parte de um dos relacionamentos queer mais marcantes do universo Star Wars, morreu por fogo amigo. A escolha causou comoção, mas o criador da série, Tony Gilroy, e o roteirista Beau Willimon esclareceram que não se tratou de apagar representação, e sim de aprofundar o realismo da série — mesmo que isso viesse com consequências emocionais.

“Foi azar narrativo, não uma agenda”

Tony Gilroy contou que o destino de Cinta foi definido logo no início da criação da temporada. Ele elaborou uma “tabela atuarial” com os personagens que poderiam — ou deveriam — morrer, considerando também fatores como a disponibilidade dos atores. “Liguei para a Varada [Sethu, atriz de Cinta] e disse: ‘Quero que seja por fogo amigo, algo estúpido. Esse roubo já é um caos. E, sinceramente, ou você ou Vel. E não posso matar a Faye [Marsay, que interpreta Vel]’”, explicou Gilroy.

A decisão, segundo ele, tinha como objetivo mostrar que, em uma guerra real, nem sempre as mortes são heroicas — às vezes, são absurdas e injustas. O impacto dramático foi intencional.

Críticas ao trope “bury your gays”

Muitos fãs reagiram mal à morte de Cinta, interpretando-a como mais um caso do trope “bury your gays” (mate seus personagens LGBTQIA+). Gilroy respondeu de forma direta: “Na primeira temporada, todo mundo elogiou a naturalidade do relacionamento [entre Cinta e Vel], porque não fizemos alarde. Agora que tratamos essa relação como qualquer outra e mostramos que qualquer personagem pode morrer, vira um problema?”

Para ele, o tratamento igualitário significa justamente não proteger personagens com base em sua representatividade, mas permitir que vivam (e morram) como qualquer outro rebelde que escolheu arriscar tudo contra o Império.

O peso emocional foi parte do plano

Willimon complementou dizendo que a ideia sempre foi mostrar o custo da rebelião. “Quase todos vão morrer. Isso está presente em cada episódio. Cinta e Vel sabiam o risco.” Para os criadores, a dor do público faz parte da narrativa: a tristeza por perder um personagem que você ama reforça a brutalidade da luta pela liberdade.

Eles queriam que a perda de Cinta doesse — não por falta de cuidado, mas por amor à história. “Te machucamos com Luthen e Clea, com Bix e Cassian. Queríamos que o público sentisse o custo pessoal da rebelião.”

A nobreza no inesperado

A cena da morte de Cinta logo após uma reconciliação com Vel teve um peso agridoce. Para Willimon, a beleza está na tragédia repentina: “Você pensa: ‘sério, foi assim que essa mulher incrível morreu?’. Mas essa é a mágica. Se você está disposto a morrer por um ideal, seja por fogo amigo ou por um tiro inimigo, a escolha já foi feita desde o começo.”

Gilroy concluiu com uma reflexão maior: “Cada pessoa se conecta com personagens diferentes. Se você é queer, é natural se apegar à Cinta. Mas minha preocupação era contar a história de como Luthen falha como líder humano, ao subestimar a importância de vínculos pessoais. Isso, para mim, é mais significativo do que decidir o momento exato em que Cinta deveria morrer.”

 

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