Durante anos, o Brasil conviveu com uma sensação constante de frustração econômica. Crises políticas, juros elevados, insegurança fiscal e crescimento irregular fizeram muitos investidores locais perderem o entusiasmo com o País. Mas algo começou a mudar nos bastidores do mercado internacional. Em meio a transformações geopolíticas, trilhões de dólares parados no sistema financeiro global e uma nova busca por oportunidades fora da China, o Brasil voltou ao radar dos grandes investidores estrangeiros — talvez com mais força do que muita gente dentro do próprio País percebeu até agora.
O motivo pelo qual investidores estrangeiros voltaram a olhar para o Brasil

Para Augusto Urmeneta, presidente do Bank of America na América Latina, o Brasil atravessa um dos momentos mais promissores desde o grande ciclo de otimismo vivido no início da década passada.
Segundo ele, o cenário internacional atual criou condições que favorecem diretamente países emergentes — especialmente aqueles capazes de oferecer escala econômica, mercado consumidor relevante e oportunidades de crescimento.
E, dentro da América Latina, poucos países conseguem reunir todos esses fatores ao mesmo tempo como o Brasil.
Urmeneta acredita que o movimento dos Estados Unidos em direção a uma aproximação maior com a região latino-americana pode beneficiar diretamente o País nos próximos anos.
Enquanto o México ocupa um papel fortemente industrial e ligado à manufatura, o executivo avalia que o Brasil oferece algo diferente: um enorme mercado interno consumidor aliado a um ambiente empreendedor considerado bastante ativo.
Na visão dele, isso coloca o País em posição privilegiada para se tornar o principal mercado emergente fora da China no próximo ciclo econômico global.
O comentário ganha peso porque vem justamente em um momento em que investidores internacionais começam a buscar alternativas após anos de concentração extrema no mercado chinês.
Os trilhões de dólares que podem mudar o fluxo para emergentes
Um dos pontos mais importantes destacados pelo executivo envolve a quantidade gigantesca de dinheiro disponível no sistema financeiro global.
Segundo estimativas do Bank of America, existem atualmente cerca de US$ 8 trilhões parados em fundos de mercado monetário nos Estados Unidos.
Além disso, outros US$ 3 trilhões seguem disponíveis em fundos de private equity aguardando oportunidades de investimento.
Parte desse capital começou recentemente a migrar para mercados emergentes excluindo a China.
De acordo com o banco, o fluxo destinado a esses países disparou para cerca de US$ 96 bilhões, quase o dobro de todo o volume registrado no ano anterior.
Esse movimento reacendeu expectativas sobre países capazes de capturar uma fatia relevante desse dinheiro internacional.
E o Brasil aparece como um dos principais candidatos.
Mesmo assim, boa parte dos investidores locais ainda demonstra bastante ceticismo em relação ao mercado brasileiro.
Segundo Urmeneta, existe atualmente uma diferença clara entre o olhar do investidor estrangeiro e o do investidor doméstico.
Enquanto muitos brasileiros permanecem focados nos problemas estruturais do País, fundos internacionais começam a enxergar oportunidades ligadas a preço, crescimento e potencial de valorização.
Por que a bolsa brasileira ainda não refletiu esse otimismo
Apesar do interesse crescente, o mercado brasileiro ainda não viveu um grande “re-rating” — expressão usada para descrever uma reavaliação mais otimista dos ativos por parte dos investidores.
Segundo o executivo do Bank of America, existem alguns fatores importantes travando esse movimento.
O principal deles é liquidez.
Embora empresas gigantes como Mercado Livre e Nubank tenham forte negociação internacional, muitas companhias brasileiras ainda possuem volume limitado de negociação quando comparadas a grandes mercados globais.
Além disso, o setor de tecnologia mundial continua altamente concentrado nos Estados Unidos por causa da corrida envolvendo inteligência artificial.
Grande parte do capital internacional segue direcionada para empresas americanas ligadas a IA, justamente porque oferecem enorme liquidez e exposição ao tema mais quente do mercado atualmente.
Mesmo assim, Urmeneta destaca que diversas empresas latino-americanas seguem entregando crescimento de receita e lucro acima de muitos concorrentes globais, mesmo acumulando queda nas bolsas ao longo do ano.
Segundo ele, os fundamentos continuam sólidos.
O papel dos juros no futuro do mercado brasileiro
Outro ponto central da análise envolve a trajetória da taxa Selic.
Hoje, o Brasil ainda convive com uma das maiores taxas reais de juros do mundo, algo que acaba drenando parte dos investimentos para aplicações de renda fixa.
Segundo Urmeneta, enquanto os juros permanecerem extremamente elevados, o fluxo para ativos de risco continuará limitado.
Mas isso pode mudar rapidamente caso o mercado passe a acreditar em cortes mais relevantes da Selic.
Na visão dele, a entrada atual de capital estrangeiro no Brasil ainda possui um componente bastante tático — investidores aproveitando preços considerados baratos e juros elevados.
Porém, se o cenário de queda de juros realmente ganhar força, o movimento pode se transformar em algo estrutural.
Isso também poderia estimular o retorno do investidor brasileiro à bolsa, já que muitos fundos locais ainda enfrentam resgates contínuos.
O cenário político ainda preocupa — mas talvez menos do que antes
Questionado sobre as eleições brasileiras e possíveis mudanças políticas, Urmeneta demonstrou uma visão relativamente pragmática.
Segundo ele, independentemente de quem estiver no poder, o principal desafio continuará sendo fiscal.
O mercado já conhece boa parte das características do atual governo e também entende que qualquer futura administração terá limitações importantes impostas pela realidade econômica.
Na prática, o executivo acredita que o Brasil continuará sendo visto como uma oportunidade relevante mesmo em meio às incertezas políticas tradicionais.
O maior problema, segundo ele, continua sendo o custo do dinheiro.
“Não dá para conviver com juros de 14,5% por muito tempo”, afirmou.
E talvez seja justamente aí que esteja a principal aposta do mercado internacional: se o Brasil conseguir combinar queda gradual dos juros, estabilidade fiscal mínima e manutenção do crescimento, o País pode acabar atraindo muito mais capital global do que parece possível hoje.
[Fonte: Brazil journal]