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Ciência

A mudança climática está criando um novo tipo de desastre natural — e os cientistas alertam que ele pode ser muito mais destrutivo

Ondas de calor, secas, enchentes e tempestades sempre existiram. Mas pesquisadores descobriram que o aquecimento global está fazendo esses fenômenos começarem a acontecer ao mesmo tempo, criando eventos climáticos “compostos” capazes de multiplicar danos humanos, econômicos e ambientais em uma escala inédita.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando enchentes devastadoras atingiram o Paquistão em 2022, o desastre já parecia extremo por si só. Milhares de casas foram destruídas, estradas desapareceram sob a água e milhões de pessoas precisaram abandonar suas regiões.

Mas havia um detalhe que transformava a tragédia em algo ainda mais perigoso: o país enfrentava simultaneamente uma intensa onda de calor.

A combinação dos dois fenômenos matou mais de 1.700 pessoas e provocou prejuízos superiores a US$ 40 bilhões. Agora, cientistas acreditam que esse tipo de cenário pode deixar de ser exceção para se tornar parte cada vez mais frequente do futuro climático do planeta.

Segundo um novo estudo publicado na revista Nature, a mudança climática está acelerando a ocorrência dos chamados “eventos extremos compostos” — situações em que múltiplos desastres climáticos acontecem ao mesmo tempo e passam a amplificar mutuamente seus efeitos.

O problema não é apenas um desastre — mas vários juntos

Os pesquisadores classificam como eventos compostos situações como:

  • calor extremo combinado com enchentes;
  • secas simultâneas a ondas de calor;
  • tempestades acompanhadas por temperaturas anormalmente elevadas;
  • períodos úmidos e quentes que favorecem surtos de doenças.

Segundo Yao Zhang, autor do estudo, esses eventos se tornam especialmente perigosos porque afetam simultaneamente infraestrutura, saúde pública, agricultura, energia e sistemas econômicos.

No caso do Paquistão, por exemplo, as chuvas de monção destruíram sistemas elétricos e habitações justamente durante um período de calor extremo. Isso aumentou dramaticamente a exposição da população à umidade, altas temperaturas e doenças infecciosas.

Além disso, o calor acelerou o derretimento de geleiras, intensificando ainda mais as enchentes.

Cientistas criaram uma nova métrica para medir o risco climático

Para entender melhor o fenômeno, os pesquisadores desenvolveram um indicador chamado TCoRE — sigla para “Resposta Transitória de Eventos Compostos às Emissões Acumuladas de CO₂”.

O conceito funciona de maneira semelhante ao já conhecido TCRE, utilizado para medir quanto a temperatura global aumenta conforme o acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera.

A diferença é que o novo modelo tenta calcular algo ainda mais preocupante: o quanto o risco de eventos extremos simultâneos cresce à medida que as emissões aumentam.

Os cientistas utilizaram modelos climáticos para simular diferentes cenários futuros de emissões e analisar com que frequência esses eventos compostos ocorreriam.

Os resultados revelaram uma relação quase linear: quanto maior o acúmulo de CO₂, maior a frequência de desastres múltiplos acontecendo ao mesmo tempo.

Os eventos mais raros podem crescer ainda mais rápido

O dado que mais preocupou os pesquisadores envolve justamente os eventos extremos mais raros.

Segundo o estudo, fenômenos que antes aconteciam uma vez por século podem passar a ocorrer várias vezes no mesmo período.

Risco∝CO2Risco \propto CO_2Risco∝CO2​

Yao Zhang explica que o aquecimento global exerce influência desproporcional justamente sobre os eventos mais extremos, porque pequenas alterações de temperatura podem gerar grandes mudanças estatísticas em cenários climáticos raros.

Em termos simples: aquilo que hoje parece excepcional pode se tornar relativamente comum nas próximas décadas.

Os pesquisadores também acreditam que os desastres compostos estão aumentando não apenas porque cada evento individual está ficando mais frequente, mas porque as conexões entre eles estão se fortalecendo.

Ondas de calor, por exemplo, podem intensificar tempestades, alterar ciclos de umidade e ampliar condições favoráveis para enchentes ou secas severas.

O orçamento de carbono talvez esteja errado

Uma das conclusões mais importantes do estudo envolve as metas globais de emissões.

Segundo os autores, os modelos climáticos atuais podem estar subestimando entre 37% e 75% o impacto das mudanças climáticas sobre eventos extremos compostos.

Isso significa que os limites atuais de emissões talvez não sejam suficientes para evitar cenários climáticos altamente perigosos.

Hoje, muitos acordos internacionais trabalham com metas voltadas para limitar o aquecimento global a:

  • 1,5 °C;
  • ou no máximo 2 °C acima dos níveis pré-industriais.

Mas os pesquisadores argumentam que, se o objetivo for reduzir significativamente os eventos extremos compostos, talvez seja necessário cortar ainda mais emissões do que o previsto atualmente.

O desafio agora vai além da previsão do tempo

O estudo também faz um alerta importante para governos e sistemas de proteção civil.

Grande parte da infraestrutura urbana e dos planos de emergência foi construída para lidar com desastres isolados: uma enchente, uma seca ou uma onda de calor por vez.

O problema é que o novo cenário climático começa a combinar vários desses eventos simultaneamente.

Segundo os pesquisadores, isso exige uma reformulação profunda nas estratégias de adaptação, planejamento urbano, saúde pública e gestão de risco.

O mundo já sabia que a mudança climática tornaria eventos extremos mais frequentes. O que a ciência começa a perceber agora é que eles também podem passar a acontecer juntos — criando desastres muito mais difíceis de prever, controlar e sobreviver.

 

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