Durante décadas, os cientistas acreditaram que Marte se transformou relativamente rápido em um deserto congelado. Mas novas evidências obtidas pelo rover Curiosity, da NASA, estão obrigando os pesquisadores a revisar essa cronologia.
Os dados coletados no Monte Sharp, dentro da cratera Gale, revelaram estruturas geológicas chamadas boxwork. Essas formações minerais lembram enormes teias sobre a superfície marciana e indicam que água líquida continuou circulando no subsolo mesmo quando o planeta já estava esfriando rapidamente.
A descoberta sugere que ambientes potencialmente favoráveis à vida microbiana podem ter persistido por muito mais tempo no passado de Marte.
Estruturas minerais que contam a história da água em Marte

As formações boxwork são redes de cristas minerais que surgem quando água rica em sais circula por fraturas nas rochas. Ao longo do tempo, os minerais se acumulam e reforçam as paredes dessas fissuras.
Quando o material rochoso ao redor sofre erosão — algo comum em Marte devido aos ventos intensos — essas estruturas mineralizadas permanecem expostas, formando padrões que lembram teias gigantes.
Foi exatamente esse tipo de formação que chamou a atenção dos cientistas enquanto o rover explorava as encostas do Monte Sharp.
Os dados analisados por pesquisadores do Jet Propulsion Laboratory indicam que essas estruturas se formaram quando água subterrânea circulava por uma rede complexa de fraturas nas rochas marcianas.
Isso significa que o nível de água subterrânea do planeta — conhecido como nível freático — permaneceu relativamente alto por um período maior do que se imaginava.
Sais que permitem água líquida em temperaturas extremas
Um dos aspectos mais intrigantes da descoberta é o tipo de minerais encontrados nessas estruturas.
Os pesquisadores identificaram sais como sulfatos e carbonatos, substâncias capazes de alterar o ponto de congelamento da água. Em ambientes muito salinos, a água pode permanecer líquida mesmo em temperaturas extremamente baixas.
Segundo os cientistas da missão, essas condições poderiam permitir a existência de água líquida em temperaturas próximas de −70 °C.
Isso cria uma espécie de refúgio químico e térmico no subsolo marciano, onde a água não congelaria tão rapidamente quanto na superfície exposta ao ambiente hostil do planeta.
Para os pesquisadores, esse mecanismo pode ter prolongado a presença de água líquida em Marte muito além do que se pensava.
O enigma das “teias” marcianas começa a ser resolvido
Durante seis meses, o rover estudou uma região repleta dessas cristas minerais, algumas com até dois metros de altura.
A exploração exigiu grande precisão de navegação. O terreno estreito e irregular representa um desafio para um robô de quase uma tonelada que precisa se mover lentamente em um ambiente cheio de obstáculos.
A engenheira Ashley Stroupe, responsável por operações do rover no Jet Propulsion Laboratory, comparou o trajeto a uma espécie de “estrada natural” formada pelas próprias cristas minerais.
Os instrumentos científicos do rover analisaram amostras de rocha e identificaram vários indícios de antigos processos aquáticos:
- minerais de argila nas regiões mais elevadas das cristas
- carbonatos presentes nos espaços arenosos entre as formações
- nódulos minerais rugosos, que geralmente se formam em ambientes com água persistente
Essas pistas indicam que o subsolo marciano teve ciclos repetidos de circulação de água.
O que isso significa para a busca por vida em Marte

A descoberta também tem implicações diretas para a busca por vida no planeta vermelho.
A cientista Tina Seeger, da Rice University, destaca que a presença dessas estruturas em altitudes elevadas sugere que o antigo nível freático de Marte era mais alto do que se pensava.
Em outras palavras, água subterrânea pode ter estado presente em grandes áreas do planeta durante períodos relativamente tardios de sua história geológica.
Isso amplia significativamente a janela de tempo em que Marte poderia ter sido habitável.
Agora, os cientistas utilizam os instrumentos do rover para procurar compostos orgânicos nas amostras de poeira e rocha coletadas na região.
Um passado mais úmido — e talvez mais habitável
As primeiras análises indicam que o clima marciano pode ter evoluído de forma mais gradual do que os modelos antigos sugeriam.
Em vez de uma transição rápida de um planeta úmido para um deserto congelado, Marte pode ter passado por ciclos intermitentes de umidade, nos quais água subterrânea continuou circulando por longos períodos.
Se essa hipótese se confirmar, significa que ambientes capazes de sustentar vida microbiana podem ter existido muito mais recentemente na história geológica do planeta.
Por isso, enquanto o Curiosity continua sua jornada pelas camadas ricas em sulfatos do Monte Sharp, cada nova amostra analisada pode aproximar os cientistas de uma das perguntas mais antigas da exploração espacial:
Marte já abrigou vida?
[ Fonte: Ok Diario ]