A exploração de asteroides sempre foi uma das formas mais promissoras de entender a origem do Sistema Solar. Entre eles, os chamados asteroides carbonáceos despertam especial interesse por preservarem materiais primitivos. Quando a missão OSIRIS-REx, da NASA, chegou a Bennu, no entanto, encontrou algo que desafiou décadas de previsões científicas — e as amostras trazidas à Terra ajudaram a revelar o motivo.
Um asteroide muito diferente do que se imaginava

Antes da chegada da sonda, cientistas acreditavam que Bennu teria uma superfície relativamente suave, coberta por pequenos grãos, semelhante à areia. Essa expectativa vinha de observações feitas por telescópios como o Spitzer, que indicavam baixa inércia térmica — ou seja, o material aquecia e esfriava rapidamente.
Mas as imagens captadas pela OSIRIS-REx mostraram um cenário completamente diferente: Bennu é dominado por grandes blocos rochosos, com pouquíssimas áreas lisas. Era um terreno irregular, cheio de saliências e estruturas complexas que não se encaixavam nos modelos anteriores.
Essa discrepância intrigou a comunidade científica e levou à necessidade de investigar o asteroide com mais profundidade — literalmente.
O que as amostras revelaram sobre as rochas
O avanço veio com a análise direta dos fragmentos coletados e trazidos à Terra. O estudo, publicado na revista Nature Communications, envolveu pesquisadores da Universidade do Arizona, do Johnson Space Center da NASA e da Universidade de Nagoya.
Nos laboratórios, os cientistas identificaram três tipos principais de partículas:
As chamadas “hummocky”, com superfície rugosa e arredondada;
As angulares, mais densas e com faces planas;
E as moteadas, mais raras e com minerais brilhantes.
Cada uma apresenta propriedades físicas distintas. As partículas angulares, por exemplo, são mais resistentes e têm maior inércia térmica. Já as hummocky possuem uma rede complexa de fissuras internas, o que reduz sua capacidade de reter calor e dificulta sua fragmentação.
Esse detalhe foi crucial para resolver o mistério da superfície de Bennu.
Fissuras microscópicas explicam o comportamento do asteroide
A chave da descoberta está nas rachaduras presentes nas rochas. Segundo os pesquisadores, a baixa inércia térmica observada no asteroide não se deve a partículas soltas, como se pensava, mas sim à presença de fissuras internas.
Essas rachaduras podem ter se formado ao longo de milhões de anos por diferentes processos: impactos de micrometeoritos, mudanças extremas de temperatura no espaço e até processos geológicos antigos no corpo original do asteroide.
Na prática, essas fissuras fazem com que o calor se dissipe rapidamente, criando um comportamento semelhante ao de materiais mais finos, mesmo quando se trata de grandes rochas.
Tecnologia de ponta para “enxergar” dentro do asteroide

Para investigar essas estruturas internas, os cientistas utilizaram técnicas avançadas como tomografia computadorizada por raios X, que permite visualizar o interior das rochas em três dimensões, e termografia a laser, usada para medir a condução de calor.
Todo o processo foi realizado em condições extremamente controladas no Johnson Space Center, para evitar qualquer contaminação terrestre. As amostras foram manipuladas em ambientes selados, preservando suas características originais.
Com base nas imagens obtidas, os pesquisadores criaram modelos digitais e simulações que reproduzem o comportamento térmico das rochas em Bennu. Isso permitiu confirmar que as redes de fissuras são responsáveis pela forma como o asteroide absorve e libera calor.
Por que isso importa para a Terra e para futuras missões
Entender como um asteroide se comporta não é apenas uma curiosidade científica. A forma como ele absorve calor influencia diretamente sua trajetória no espaço, sua resistência a impactos e até sua possível fragmentação.
Essas informações são fundamentais para estratégias de defesa planetária. Em caso de risco de colisão com a Terra, saber como um asteroide reage pode determinar o sucesso — ou fracasso — de uma missão de desvio.
Além disso, os dados ajudam a reconstruir a história desses corpos. As fissuras e a porosidade observadas indicam que Bennu passou por processos como interação com água em seu asteroide “pai”, oferecendo pistas sobre os primeiros estágios do Sistema Solar.
Como destacou o pesquisador Ron Ballouz, pela primeira vez é possível conectar diretamente observações feitas por telescópios com análises laboratoriais do próprio asteroide. É um salto importante na forma como estudamos esses objetos.
E talvez o mais fascinante: dentro dessas rochas aparentemente simples, estão registradas histórias que remontam à origem dos planetas — inclusive o nosso.
[ Fonte: Infobae ]