O asteroide Ryugu, visitado pela missão japonesa Hayabusa2, tornou-se uma das fontes mais valiosas de informação sobre as origens do Sistema Solar. Pequenas amostras coletadas diretamente do objeto e trazidas à Terra estão permitindo que cientistas investiguem processos ocorridos bilhões de anos atrás. Agora, um novo estudo identificou registros magnéticos preservados nessas partículas que podem ajudar a entender como o campo magnético solar influenciou a formação dos planetas.
Micromostras revelam um campo magnético antigo

A descoberta foi liderada por Masahiko Sato, pesquisador da Universidade de Ciências de Tóquio, e publicada na revista científica Journal of Geophysical Research: Planets. O trabalho analisou 28 micromostras provenientes do asteroide Ryugu.
Entre essas partículas, 23 apresentaram sinais claros de magnetização remanente natural — um tipo de registro magnético preservado nos minerais desde o momento em que se formaram. O resultado indica que esses fragmentos mantiveram informações sobre o campo magnético existente no Sistema Solar primitivo.
O dado mais surpreendente é que algumas dessas partículas exibem múltiplos componentes de magnetização. Oito delas apresentaram dois componentes magnéticos estáveis, enquanto uma partícula revelou direções magnéticas heterogêneas em diferentes regiões.
Essas variações mostram que os grãos registraram condições físicas complexas enquanto ainda estavam se formando.
Um avanço em relação a estudos anteriores
Pesquisas anteriores haviam analisado apenas sete partículas de Ryugu, um número pequeno demais para permitir interpretações conclusivas. O novo estudo amplia significativamente a amostragem e oferece dados muito mais consistentes.
Com essa quantidade maior de material analisado, os pesquisadores conseguiram delimitar com mais precisão quando a magnetização foi adquirida pelos minerais presentes no asteroide.
Segundo os autores, os registros magnéticos podem ter sido formados entre três e sete milhões de anos após o nascimento do Sistema Solar. Esse período corresponde a uma fase crucial da evolução do disco protoplanetário — a grande nuvem de gás e poeira que deu origem aos planetas.
Instrumentos extremamente sensíveis
Para detectar esses sinais minúsculos, os cientistas utilizaram equipamentos altamente sensíveis, incluindo um magnetômetro SQUID da Universidade de Tóquio.
Esse tipo de instrumento é capaz de medir campos magnéticos extremamente fracos, permitindo identificar registros preservados em partículas microscópicas.
As amostras analisadas também possuem uma vantagem importante: foram coletadas diretamente no espaço pela missão Hayabusa2 e mantidas em condições rigorosas para evitar contaminação magnética da Terra.
Isso garante que os sinais detectados refletem processos antigos do espaço, e não interferências recentes.
O papel da água na formação dos minerais
Os pesquisadores também investigaram a origem da magnetização encontrada nas partículas. Os resultados indicam que ela provavelmente surgiu durante a formação de minerais chamados magnetita framboidal.
Esse processo ocorreu quando o corpo original que deu origem ao Ryugu sofreu alterações químicas provocadas pela presença de água.
Durante essa transformação, os minerais cresceram preservando o campo magnético presente no ambiente do disco solar. Assim, cada partícula se tornou uma espécie de registro microscópico do campo magnético da época.
A diversidade nas direções de magnetização observada em algumas partículas sugere que esse registro foi adquirido antes que o material se solidificasse completamente.
Ryugu como cápsula do tempo do Sistema Solar
O interesse científico por Ryugu é enorme porque o asteroide é considerado um fragmento remanescente de colisões entre corpos maiores ocorridas nos primeiros estágios da história do Sistema Solar.
Sua composição rica em carbono e sua baixa exposição a aquecimento intenso ajudaram a preservar materiais extremamente antigos.
Por isso, muitos cientistas descrevem o asteroide como uma verdadeira cápsula do tempo cósmica.
Estudar partículas praticamente intactas vindas do espaço profundo permite reconstruir como o material se distribuía no disco protoplanetário e quais processos físicos levaram à formação dos planetas.
Compreender o papel dos campos magnéticos nesse ambiente é especialmente importante. Esses campos podem ter influenciado o transporte de poeira, a formação de planetesimais e a evolução do próprio disco de gás e partículas.
Uma pista sobre as origens da Terra

Segundo Masahiko Sato, as medições magnéticas obtidas nas micromostras de Ryugu ajudam a resolver interpretações conflitantes de estudos anteriores.
Os novos dados oferecem pistas mais claras sobre como o campo magnético do jovem Sistema Solar evoluiu ao longo do tempo.
Esse tipo de informação é essencial para reconstruir os processos que levaram da poeira interestelar à formação de planetas como a Terra.
Cada partícula analisada representa um fragmento preservado de uma época extremamente remota — um registro físico que conecta os primórdios do Sistema Solar às condições que, bilhões de anos depois, permitiriam o surgimento de oceanos, atmosfera e vida no nosso planeta.
[ Fonte: Infobae ]