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Ciência

A nova geração de medicamentos que tenta frear o Alzheimer

Um novo medicamento recebeu sinal verde no Brasil e reacendeu expectativas — e debates — sobre até onde a ciência já consegue ir para desacelerar o Alzheimer nos seus primeiros sinais.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Depois de anos sem novidades capazes de alterar o curso da doença, um movimento recente chamou a atenção de médicos, pesquisadores e famílias. A decisão envolve uma terapia de nova geração, cercada de critérios, custos elevados e promessas cautelosas. Não é uma cura, mas pode representar um ponto de inflexão para um grupo específico de pacientes.

A aprovação que marca uma nova fase no tratamento

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou um novo medicamento para o tratamento do Alzheimer no Brasil. O aval foi concedido ao lecanemabe, comercializado como Leqembi pelas farmacêuticas Biogen e Eisai.

A autorização foi publicada no Diário Oficial da União no fim de dezembro e se aplica a pacientes adultos em fase inicial da doença — aqueles com comprometimento cognitivo leve ou demência leve associada ao Alzheimer. Ainda não há previsão oficial para o início das vendas no país.

O Leqembi faz parte de uma nova geração de terapias que não prometem reverter o quadro, mas conseguem algo inédito até poucos anos atrás: interferir diretamente na progressão da doença. O efeito é considerado modesto, porém relevante, especialmente em um campo marcado por décadas de frustrações terapêuticas.

Para que o medicamento seja indicado, é necessário confirmar a presença das placas da proteína amiloide no cérebro, principal alvo da droga. Além disso, pacientes com uma mutação genética específica associada a maior risco de efeitos adversos graves não podem receber o tratamento, o que restringe ainda mais o público elegível.

Como funciona o medicamento — e por que ele é diferente

A nova geração de medicamentos que tenta frear o Alzheimer
© Pexels

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal antiamiloide, mesma classe à qual pertence o donanemabe, comercializado como Kisunla e produzido pela Eli Lilly, já aprovado no Brasil anteriormente. Esses medicamentos são considerados os primeiros a modificar de forma comprovada a evolução do Alzheimer.

O mecanismo de ação consiste em se ligar às placas de proteína amiloide acumuladas no cérebro e favorecer sua eliminação do entorno dos neurônios. A administração é feita por infusão intravenosa, a cada duas semanas, em ambiente hospitalar, com duração aproximada de uma hora.

Nos estudos clínicos, o tratamento com o Leqembi foi conduzido ao longo de 18 meses. Ao final desse período, observou-se uma redução de cerca de 27% no ritmo da perda cognitiva. Quando esses dados foram divulgados, em 2022, foi a primeira vez que um medicamento demonstrou impacto direto e mensurável na progressão do Alzheimer.

Para o neurocientista Mychael Lourenço, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a aprovação tem peso simbólico e científico. Segundo ele, não se trata de uma cura, mas de um atraso real da evolução clínica, algo que até então parecia inalcançável.

Custos elevados e riscos que limitam o acesso

Apesar do avanço, o caminho até o paciente é complexo. O preço do Leqembi no Brasil ainda não foi definido, já que depende de decisão da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Nos Estados Unidos, o tratamento custa cerca de US$ 26,5 mil por ano.

O cenário se repete com o Kisunla, que já é comercializado em alguns hospitais brasileiros por valores que ultrapassam R$ 200 mil anuais. Mesmo apresentando eficácia ligeiramente superior, com redução da perda cognitiva de até 35% nos estudos, o custo elevado torna esses medicamentos inacessíveis para a maioria da população.

Especialistas avaliam que, ao menos por enquanto, essas terapias dificilmente serão incorporadas ao SUS. O alto preço, a indicação restrita e o fato de não curarem a doença pesam contra uma decisão favorável.

Além do custo, há os riscos. Entre os efeitos adversos observados estão hemorragias cerebrais, reações à infusão e dores de cabeça. Em alguns casos, foram registrados edemas cerebrais que podem variar de quadros leves até situações graves, inclusive fatais. Por isso, a triagem clínica precisa ser rigorosa, com exames genéticos e de imagem antes do início do tratamento.

Avanços reais, mas ainda longe da solução final

Outro ponto destacado por pesquisadores é que a maior parte dos ensaios clínicos desses medicamentos foi realizada nos Estados Unidos e na Europa, com populações geneticamente mais homogêneas do que a brasileira. Isso levanta a necessidade de avaliar com cuidado a eficácia e a segurança dessas terapias no contexto do Brasil.

Ainda assim, o sentimento predominante entre especialistas é de avanço. Depois de anos sem alternativas inovadoras, os novos anticorpos mostram que atacar a proteína amiloide pode, sim, gerar benefícios clínicos mensuráveis — ainda que limitados.

Para Lourenço, o impacto vai além do medicamento em si. Do ponto de vista científico, os resultados indicam que a pesquisa está no caminho certo e que novos tratamentos, potencialmente mais eficazes e seguros, podem surgir mais rapidamente nos próximos anos.

O Leqembi não encerra a história do Alzheimer, mas sinaliza que ela entrou em um novo capítulo — mais cauteloso, mais técnico e, pela primeira vez em muito tempo, um pouco mais promissor.

[Fonte: Olhar digital]

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