Durante décadas, criar uma célula funcional totalmente do zero foi considerado um dos maiores desafios da biologia sintética. Agora, uma equipe de pesquisadores afirma ter alcançado um marco que poucos imaginavam possível. A novidade provocou entusiasmo entre cientistas, gerou críticas durante o processo de publicação e levantou novamente uma pergunta que continua sem resposta definitiva: afinal, onde termina a química e começa a vida?
Uma estrutura criada do zero que imita funções essenciais da vida
O projeto, chamado SpudCell, foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Minnesota e consiste em uma célula sintética montada exclusivamente com componentes químicos não vivos, como lipídios, proteínas e fragmentos de DNA.
Embora não seja considerada um organismo vivo no sentido tradicional, a estrutura consegue executar etapas fundamentais do ciclo celular. Ela cresce incorporando material do ambiente, replica seu próprio material genético, divide-se em novas células e até consegue competir com outras versões semelhantes quando recebe uma vantagem genética previamente programada.
A construção reúne cerca de 150 a 200 tipos diferentes de moléculas e um genoma de aproximadamente 90 mil pares de bases distribuídos em sete plasmídeos independentes. Esse desenho modular permite que os cientistas ativem ou desativem funções específicas de forma relativamente simples, tornando a plataforma altamente programável.
O número chama atenção porque muitos pesquisadores acreditavam que uma célula funcional exigiria um genoma mínimo maior. Para efeito de comparação, uma bactéria E. coli possui cerca de 4,6 milhões de pares de bases, enquanto o genoma humano ultrapassa 3 bilhões.
Apesar disso, a SpudCell ainda apresenta limitações importantes. Ela não produz seus próprios ribossomos — estruturas responsáveis pela fabricação de proteínas — e depende que esses componentes sejam fornecidos pelos pesquisadores durante seu crescimento. Além disso, seu ciclo de divisão é lento: cada geração leva aproximadamente 12 horas para se completar.
O debate sobre o que realmente pode ser considerado vida
Mesmo com essas restrições, o trabalho chamou a atenção da comunidade científica justamente por reproduzir, usando apenas química, um ciclo celular completo.
A principal pesquisadora do projeto evitou responder se a SpudCell pode ser considerada um ser vivo. Para ela, a própria definição de vida não é absoluta, e a nova tecnologia mostra que talvez existam estados intermediários entre sistemas puramente químicos e organismos biológicos.
Outros especialistas compartilham dessa visão. Embora muitos considerem o resultado um dos avanços mais importantes da biologia sintética dos últimos anos, também reconhecem que a plataforma ainda depende de assistência externa para funcionar e não consegue evoluir naturalmente por meio de mutações espontâneas.
A discussão ganhou ainda mais repercussão porque, segundo relatos publicados por veículos especializados, um dos revisores da revista científica Cell rejeitou o estudo afirmando que ele “não era biologia de verdade”. Em vez de aguardar uma nova rodada de avaliação, os autores decidiram divulgar o trabalho como preprint, permitindo que a comunidade científica tivesse acesso imediato aos resultados.
As aplicações que podem transformar diversas áreas
Embora a versão atual seja bastante limitada, os pesquisadores enxergam a SpudCell como uma plataforma para futuras aplicações.
Ao contrário das células naturais modificadas por engenharia genética, uma célula construída completamente do zero oferece controle total sobre sua composição. Isso permite projetar sistemas extremamente específicos para diferentes objetivos.
Entre as possibilidades estudadas estão a produção de medicamentos mais precisos, o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis e até sistemas capazes de capturar dióxido de carbono da atmosfera com maior eficiência.
Os pesquisadores também destacam que a tecnologia oferece vantagens em termos de biossegurança. Como depende de componentes que não existem naturalmente no ambiente, a SpudCell não consegue sobreviver nem se multiplicar fora do laboratório. Essa característica reduz significativamente os riscos de disseminação acidental e ainda permite incorporar mecanismos extras de contenção em futuras versões.
Mesmo sem responder definitivamente se criou ou não uma nova forma de vida, o projeto já conseguiu algo igualmente importante: recolocar uma das maiores questões da ciência no centro do debate e mostrar que a fronteira entre química e biologia talvez seja muito menos rígida do que se imaginava.