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Ciência

Este cometa interestelar trouxe metanol, cianeto e metano — e seu brilho explodiu meses depois da passagem pelo Sol, revelando segredos guardados há bilhões de anos

O visitante cósmico 3I/ATLAS surpreendeu astrônomos ao liberar moléculas orgânicas e apresentar uma erupção tardia de atividade. Terceiro objeto confirmado vindo de fora do Sistema Solar, ele pode ser mais antigo que o próprio Sol — e está oferecendo pistas raras sobre a química de outros sistemas planetários.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um novo relatório científico colocou o cometa 3I/ATLAS no centro das atenções da astronomia. Observações recentes detectaram metanol, cianeto e metano em sua composição, além de um aumento abrupto de brilho cerca de dois meses após sua passagem mais próxima do Sol. Para os pesquisadores, essa combinação de química orgânica e atividade tardia transforma o objeto em um laboratório natural sobre como a matéria se forma e evolui fora do nosso quintal cósmico.

Na Terra, moléculas orgânicas são a base da vida. No espaço, elas também podem surgir por processos puramente físicos e químicos — e é exatamente isso que torna o 3I/ATLAS tão valioso: ele carrega material preservado por milhões (ou bilhões) de anos em ambientes que não conhecemos de perto.

Uma erupção atrasada que chamou atenção

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© https://x.com/nedoliveira1/

Além das assinaturas químicas, o comportamento do cometa intrigou a equipe. Em vez de atingir seu pico de atividade no momento de maior aquecimento solar, o 3I/ATLAS “acordou” semanas depois. Esse atraso acontece porque o calor leva tempo para atravessar as camadas externas do núcleo. Só então o gelo mais profundo começa a sublimar, liberando gases e poeira.

“O cometa entrou em erupção no espaço em dezembro de 2025, após sua passagem próxima pelo Sol, o que causou um aumento significativo em seu brilho. Até mesmo o gelo de água estava sublimando rapidamente no espaço interplanetário”, explicou Carey Lisse, pesquisador do Johns Hopkins Applied Physics Laboratory, em Laurel, Maryland.

Segundo Lisse, os cometas costumam ter cerca de um terço de sua massa formada por gelo de água. No caso do 3I/ATLAS, as medições indicam a liberação de uma quantidade expressiva de material rico em carbono que permaneceu aprisionado em grandes profundidades. Em outras palavras: o visitante começou a expor camadas antigas, praticamente intocadas desde sua formação.

Um visitante vindo de outro sistema solar

O 3I/ATLAS foi identificado em 1º de julho de 2025 por um telescópio do projeto ATLAS instalado em Río Hurtado, no Chile. Pouco depois, análises detalhadas revelaram uma coma dominada por dióxido de carbono — uma concentração sem precedentes em cometas observados até hoje.

O detalhe decisivo é sua trajetória. O objeto segue uma órbita hiperbólica, o que significa que não está preso à gravidade do Sol e não retorna em ciclos. Essa dinâmica o classifica como interestelar: ele se formou em outro sistema planetário e apenas está de passagem.

Estudos preliminares divulgados pela International Asteroid Warning Network apontam exatamente nessa direção. De acordo com as estimativas, o 3I/ATLAS teria sido ejetado de seu sistema natal, vagado pelo espaço interestelar por um período imenso e, por acaso cósmico, cruzado nosso caminho.

No momento da detecção, ele estava a cerca de 670 milhões de quilômetros do Sol, já dentro da órbita de Júpiter, viajando a impressionantes 221 mil quilômetros por hora. Essa velocidade é mais do que suficiente para impedir qualquer captura gravitacional duradoura.

Um fóssil químico mais velho que o Sistema Solar

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© Unsplash – Mohamed Nohassi

Talvez o dado mais fascinante venha de modelos computacionais aplicados ao objeto. As simulações sugerem que o 3I/ATLAS pode ter mais de sete bilhões de anos — portanto, mais antigo que o Sistema Solar, formado há cerca de 4,6 bilhões de anos.

Se isso se confirmar, estamos diante de um verdadeiro fóssil galáctico. Suas moléculas orgânicas, preservadas no gelo por eras, funcionam como cápsulas do tempo, oferecendo uma amostra direta da química que existia em outras regiões da Via Láctea muito antes de a Terra sequer existir.

Cada liberação de gás, cada variação de brilho, ajuda a reconstruir essa história. O 3I/ATLAS não é apenas mais um cometa: é um mensageiro de outros sistemas solares. E, enquanto cruza nosso bairro cósmico, está nos dando uma oportunidade rara de estudar, em primeira mão, como a matéria orgânica se organiza além do Sol — uma peça importante para entender de onde viemos e quão comum pode ser a química da vida no Universo.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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