O futuro do tratamento de queimaduras e feridas está se tornando “escamoso” — no bom sentido. Uma nova pesquisa sugere que um número maior de espécies de peixes do que se imaginava pode ser usado como curativos para feridas.
Pesquisadores da Universidade Ateneo de Manila, nas Filipinas, conduziram um estudo para testar a viabilidade da pele de peixe-leite (Chanos chanos) como base para enxertos de pele. Eles descobriram que a pele do peixe-leite era tão durável e eficaz na inibição do crescimento de microrganismos quanto a pele de tilápia, uma alternativa emergente para enxertos de pele. Essa descoberta pode transformar o peixe-leite em uma opção econômica e sustentável para o tratamento de ferimentos graves, especialmente em regiões mais pobres, afirmam os pesquisadores.
Peixes como alternativa em tratamentos de queimaduras
Nos últimos anos, cientistas vêm explorando o uso da pele de peixe como material para enxertos de pele em humanos e animais. Comparada a enxertos de pele de outros animais, a pele de peixe apresenta maior resistência à contaminação viral e pode acelerar a cicatrização de feridas. Produtos à base de pele de peixe já estão em fase de testes e foram utilizados em situações de emergência, como durante os incêndios florestais na Califórnia em 2023.
Atualmente, o peixe mais utilizado para esses enxertos é a tilápia, mas os pesquisadores da Ateneo de Manila quiseram investigar se o popular peixe-leite (conhecido localmente como bangus) poderia ser uma alternativa eficaz para o tratamento de feridas.
Como foi feito o estudo
Os pesquisadores coletaram peles frescas de peixe-leite e tilápia em um mercado local na região metropolitana de Manila. Em seguida, removeram as escamas, lavaram e cortaram as peles em tiras.
- Algumas dessas tiras foram tratadas com nanopartículas de prata, um agente antimicrobiano comum.
- Outras tiras foram mantidas sem tratamento para servir como grupo de controle.
Sob o microscópio, a pele do peixe-leite manteve a integridade estrutural do colágeno de forma semelhante à da tilápia. Além disso, a pele tratada com nanopartículas de prata inibiu o crescimento de bactérias e fungos com a mesma eficiência que a pele de tilápia.
Os pesquisadores destacaram a importância dos resultados:
“Ao demonstrar que a pele do peixe-leite pode ser esterilizada e usada de forma semelhante à pele de tilápia, esta pesquisa oferece soluções inovadoras, econômicas e sustentáveis para a cicatrização de feridas”, escreveram no estudo, publicado no final do ano passado na revista científica BIO Web of Conferences.
Embora o peixe-leite seja muito consumido nas Filipinas, sua pele geralmente é descartada como lixo. Reaproveitar esse material como curativo para feridas poderia não apenas reduzir o desperdício ambiental, mas também ajudar hospitais com poucos recursos.
No entanto, os pesquisadores enfatizam que mais estudos são necessários para confirmar totalmente a viabilidade da pele de peixe-leite em enxertos de pele. Mesmo assim, eles veem um grande potencial para essa abordagem:
“Esta descoberta tem o potencial de transformar o tratamento de feridas em áreas carentes, melhorando os resultados dos pacientes em regiões com acesso limitado a instalações médicas avançadas”, escreveram.
Além da tilápia e do peixe-leite, cientistas ao redor do mundo já começaram a testar outras espécies, como o bacalhau, como material base para enxertos de pele.
O futuro do cuidado com feridas pode, de fato, estar debaixo d’água!