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Tecnologia

A polêmica dos bebês hiper-realistas que virou caso de polícia e chegou ao Congresso no Brasil

Uma onda de projetos de lei, ameaças nas redes e notícias sensacionalistas transformou os bonecos hiper-realistas conhecidos como “reborns” no novo foco de pânico moral no Brasil. O fenômeno, que parecia inofensivo e artístico, acabou virando campo de disputa política, revelando preconceitos e distorções sobre quem coleciona essas peças.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Enquanto o país enfrenta crises políticas reais — de julgamentos por tentativa de golpe a recordes de impopularidade —, parte do debate público se desviou para um tema inesperado: bonecas hiper-realistas. Os chamados “reborns” provocaram comoção nas redes, mobilizaram parlamentares e colocaram artesãs sob ameaça. O que começou como um hobby silencioso virou alvo de escárnio, legislação e até violência. Mas o que está por trás dessa reação desproporcional?

 

Bonecas que viraram assunto de Estado

Nas últimas semanas, cerca de 30 projetos de lei sobre bonecas reborn foram apresentados em diversas instâncias no Brasil. Algumas propostas buscavam proibir o uso dessas figuras em hospitais públicos ou impedir que colecionadoras usassem os bonecos para obter prioridade em filas de atendimento. Na prática, essas situações raramente ocorreram — apenas um caso documentado envolveu uma mulher com transtornos mentais.

 

Redes sociais e o gatilho da histeria

A comoção começou com vídeos virais: uma mulher sendo chamada de “louca” ao levar uma reborn a um shopping e outro mostrando uma “consulta” hospitalar com uma boneca, que na verdade era apenas encenação. Mas as imagens se espalharam sem contexto e alimentaram reações exageradas. Rapidamente surgiram críticas, sátiras e até canções zombando das colecionadoras — incluindo incentivos à agressão contra os bonecos nas ruas.

 

A tragédia do mal-entendido

Bebes Reborn 1
© X – @siteptbr

O momento mais grave da controvérsia veio em 6 de junho, quando um homem agrediu um bebê real de quatro meses alegando que pensava se tratar de um reborn. A criança passa bem e o agressor responde em liberdade, mas o episódio ilustra os riscos de uma histeria coletiva mal direcionada.

 

Uma reação politizada

Segundo a antropóloga e cientista política Isabela Kalil, da FESPSP, nunca se viu uma pauta gerar tantos projetos de lei em tão pouco tempo. Ela destaca que todos os projetos apresentados em maio sobre o tema vieram de parlamentares da direita e extrema direita, como revelou o portal UOL. Para Kalil, trata-se de uma estratégia: “Quando um tema vira tendência, políticos propõem leis, mesmo sem sentido, para chamar atenção.”

 

Um escape em meio à crise

Esse movimento acontece enquanto a direita brasileira vive um momento turbulento, com Jair Bolsonaro sendo julgado por tentativa de golpe e fora das eleições por decisão da Justiça Eleitoral. “Criar pânico moral em torno de temas culturais é uma forma de manter sua base mobilizada, mesmo sem uma liderança clara no horizonte”, afirma Kalil. O ódio, neste caso, torna-se um combustível político.

 

Mulheres sob ataque

A maioria das colecionadoras, artesãs e criadoras de conteúdo sobre reborns são mulheres. E são elas as maiores vítimas do linchamento virtual. Larissa Vedolin, artista de 25 anos conhecida como Emily Reborn, relata receber ameaças diárias: “Dizem que vão me encontrar armados na rua. É aterrorizante.” Outras artistas relatam crises de choro e medo de postar conteúdo nas redes.

 

Arte, não brinquedo

As bonecas reborn exigem semanas de trabalho e custam entre R$ 1.300 e R$ 16 mil. Detalhes como fios de cabelo implantados um a um e pinturas realistas elevam o status da peça de brinquedo a objeto de arte. Bianca Miranda, que atua na área há 14 anos, reforça: “Sempre soube que era uma boneca. Mas também sei o quanto de amor e dedicação envolve criá-la.”

 

O machismo por trás da reação

Para Kalil, a raiz do preconceito está na forma como se trata o lazer feminino: “Homens adultos podem colecionar action figures ou jogar videogame sem julgamento. Já mulheres que se dedicam a algo não convencional são rapidamente rotuladas como doentes.” O reborn se tornou, assim, um espelho de uma sociedade que ainda patologiza os gostos femininos.

 

Quando o ódio encontra um alvo

O youtuber Chico Barney, que documentou um encontro de colecionadores em São Paulo, ficou surpreso com a normalidade do ambiente: “Era só gente trocando ideias sobre algo que gostam.” Mas o ambiente virtual, onde a polarização reina, tornou o reborn um alvo fácil para ataques irracionais. Como resume Vedolin, “as pessoas só querem algo para odiar”.

 

A controvérsia em torno das bonecas reborn no Brasil expõe muito mais sobre o clima cultural e político do que sobre o hobby em si. Em tempos de instabilidade e incerteza, a arte e o afeto foram transformados em objeto de escárnio — e quem os pratica, em alvo de intolerância.

 

[ Fonte: The Guardian ]

 

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