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Ciência

A prática que cresce na América Latina e acendeu um alerta internacional

Um fenômeno em expansão na região entrou no radar das Nações Unidas. Especialistas apontam riscos pouco debatidos — e dizem que o problema vai muito além do que parece.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Nos últimos anos, a América Latina passou a ocupar um espaço estratégico em um mercado global controverso e altamente lucrativo. O tema envolve promessas, contratos e decisões íntimas, mas também levanta denúncias graves e questionamentos éticos profundos. Agora, um alerta formal da ONU reacende o debate e pressiona governos da região a reverem políticas públicas diante de riscos que, segundo especialistas, não podem mais ser ignorados.

ONU aponta riscos e pede ação urgente

A prática que cresce na América Latina e acendeu um alerta internacional
© Pexels

A relatora especial das Nações Unidas sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, fez um alerta direto: a América Latina está se consolidando como destino da indústria da gestação por substituição — prática que, segundo ela, tem gerado violações graves de direitos humanos.

Durante um encontro voltado à erradicação da violência contra mulheres e meninas, a especialista afirmou que o tema não pode ser tratado como uma simples escolha privada nem ficar restrito às clínicas de reprodução assistida. Para Alsalem, há uma estrutura de mercado que transforma a reprodução em produto negociável.

Em sua avaliação, mulheres em situação de vulnerabilidade econômica estariam particularmente expostas a contratos abusivos, pressão psicológica e dependência financeira. Segundo a relatora, mesmo em países onde a prática foi regulamentada, persistem riscos significativos. A legalização, destacou, não elimina automaticamente brechas nem garante proteção efetiva.

Outro ponto levantado diz respeito às crianças nascidas por meio desses acordos. De acordo com a especialista, muitas vezes não há investigação aprofundada sobre os contratantes, e a capacidade de pagamento acaba sendo o principal critério considerado. Isso, afirma, pode gerar situações de abandono, exploração e outras violações posteriores.

A relatora também chamou atenção para a falta de dados consolidados sobre o destino de parte dessas crianças e sobre as condições enfrentadas pelas mulheres envolvidas no processo.

Mercado internacional e desigualdades estruturais

O crescimento da prática na região não ocorre isoladamente. Ele está inserido em um contexto global em que países com legislações mais permissivas ou com menor fiscalização acabam se tornando polos de atração para estrangeiros.

Especialistas apontam que a combinação entre desigualdade social e demanda internacional cria um cenário delicado. Mulheres em situação de pobreza podem enxergar na gestação por substituição uma oportunidade financeira, enquanto clientes estrangeiros buscam custos mais baixos e menos exigências burocráticas.

Segundo Alsalem, tratar a reprodução como serviço comercial amplia vulnerabilidades já existentes. Ela alertou que há casos em que mulheres vivem sob forte controle contratual durante a gestação, enfrentando restrições de mobilidade e decisões médicas impostas por terceiros.

Ao mesmo tempo, a ausência de mecanismos robustos de acompanhamento pós-nascimento dificulta a avaliação dos impactos reais sobre as crianças. Para a relatora, a prioridade dos sistemas atuais muitas vezes recai sobre a formalização do contrato — e não sobre garantias de longo prazo.

Avanços legislativos e desafios persistentes

A ONU reconhece que diversos países latino-americanos avançaram na criação de leis voltadas ao enfrentamento da violência de gênero. A representação feminina em parlamentos também cresceu nos últimos anos, e reformas legais foram implementadas para lidar com feminicídio, desaparecimentos e violência baseada em gênero.

No caso do México, por exemplo, o país acolheu recomendações internacionais que incluíram mudanças legislativas importantes e medidas de proteção para defensoras de direitos humanos e jornalistas.

Ainda assim, a relatora afirmou que os níveis de violência contra mulheres permanecem alarmantes e, em alguns casos, crescentes. Relatórios recentes apontam que abusos são cometidos tanto por agentes estatais quanto por atores não estatais, o que revela a complexidade do cenário.

Nesse contexto, a gestação por substituição surge como mais um elemento em um panorama já marcado por desigualdades estruturais e vulnerabilidades históricas.

O debate que a região não pode adiar

A advertência das Nações Unidas coloca a América Latina diante de uma decisão delicada: como equilibrar autonomia individual, demanda internacional e proteção de direitos fundamentais?

Para especialistas, o desafio está em construir marcos regulatórios que priorizem transparência, fiscalização efetiva e proteção integral de mulheres e crianças. Sem isso, o risco é que o tema continue sendo conduzido predominantemente por interesses de mercado.

O debate está longe de ser consensual. Há quem defenda a regulamentação como forma de reduzir abusos, enquanto outros argumentam que a própria lógica comercial da prática gera desigualdades inevitáveis.

O que parece claro é que a discussão ultrapassa fronteiras e envolve direitos humanos, políticas públicas e modelos econômicos. A forma como os países latino-americanos responderão a esse alerta poderá redefinir o papel da região em um mercado global que cresce — e que agora está sob escrutínio internacional.

[Fonte: Jornada]

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