Nos últimos anos, a Coreia do Norte vem ampliando sua presença no mundo digital de maneira clandestina. Usando uma complexa rede de trabalhadores remotos falsos, o regime de Pyongyang consegue infiltrar cidadãos em empresas de tecnologia do Ocidente, obtendo recursos financeiros vitais para suas atividades. Uma recente grande filtragem de dados internos e e-mails expôs como essa operação funciona com rigor quase militar, mostrando seu impacto global.
Uma operação estruturada e disciplinada
Longe de ser improvisada, essa rede conta com uma organização bem definida. Conforme revelou o pesquisador SttyK à Wired, a operação envolve doze equipes, cada uma com cerca de doze integrantes, todas subordinadas a um “chefe mestre”. Os grupos usam ferramentas como Slack, contas Google, GitHub e planilhas para monitorar o progresso das missões, que incluem o mapeamento das tecnologias demandadas pelas empresas e o status de cada candidatura.
O objetivo vai além da simples infiltração: trata-se de garantir uma fonte constante de recursos financeiros para o regime. São priorizadas vagas em áreas de alta demanda como inteligência artificial, blockchain, desenvolvimento de bots, web e aplicativos móveis, focando em países onde a inserção é mais viável.
Construindo identidades falsas convincentes
O ex-trabalhador remoto “Jin-su”, que desertou da Coreia do Norte, revelou como o processo de criação das identidades funciona. Inicialmente, usavam identidades chinesas, mas descobriram que passaportes europeus e britânicos abriam mais portas. Documentos falsificados da Hungria, Turquia e Reino Unido são utilizados, e o inglês é aprimorado para entrevistas virtuais — um método facilitado pela ausência de contato físico.
Embora o avanço das ferramentas de inteligência artificial para entrevistas possa dificultar essa estratégia no futuro, a ausência do contato presencial tem sido uma vantagem até agora. Curiosamente, foram detectados currículos idênticos sendo usados por diferentes indivíduos dentro da rede.

Lucros, controle rigoroso e exaustão
A principal motivação é financeira. Estimativas da ONU apontam que essa rede gera entre 250 e 600 milhões de euros por ano para financiar o regime de Pyongyang. Dos salários recebidos, 85% são enviados diretamente para o governo norte-coreano, enquanto os trabalhadores ganham valores muito superiores aos praticados em seu país.
Alguns integrantes operam a partir da Rússia e China, onde desfrutam de maior liberdade, o que reduz as deserções. No entanto, o ritmo de trabalho é exaustivo: registros de mensagens mostram que os líderes das equipes exigem jornadas de pelo menos 14 horas diárias. Paralelamente, outra parte do esquema envolve o roubo de criptomoedas, acumulando bilhões em ataques cibernéticos que fortalecem ainda mais as finanças do regime.