A estratégia nacional e seus números impressionantes
Desde 2021, os robôs humanoides fazem parte do plano estratégico de Estado. O governo chinês destinou cerca de US$ 140 bilhões a startups e estabeleceu uma meta de crescimento de 20% ao ano. Em 2025, espera-se a fabricação de mais de 10 mil unidades, com cidades como Xangai e Shenzhen se consolidando como polos de investimento. Para Pequim, essa é a próxima revolução depois dos smartphones e dos carros elétricos.
Os “Jogos Olímpicos” dos robôs
Em agosto, Pequim sediou a primeira edição dos chamados Jogos Olímpicos de robôs humanoides. As provas incluíram corridas, tarefas industriais e demonstrações de agilidade. O destaque foi o modelo H1 da Unitree, que percorreu 1.500 metros em 6 minutos e 34 segundos, superando o famoso Atlas da Boston Dynamics. Apesar do espetáculo visual, muitos ignoraram um detalhe: grande parte das máquinas não agia de forma autônoma, mas sim sob controle de operadores humanos.
Autonomia e segurança: obstáculos ainda sem solução
Embora o investimento seja maciço, os desafios técnicos continuam. O Digit da Agility, por exemplo, precisa de nove minutos de recarga após apenas 90 minutos de uso — e deve ser desligado antes para não ficar sem bateria. A segurança também preocupa: um robô bípedo de dezenas de quilos pode causar sérios acidentes em caso de queda. Além disso, a confiabilidade necessária para uso industrial, próxima de 99,99%, ainda está distante.

A pergunta incômoda: onde está o mercado?
As previsões mais otimistas falam em 18 mil unidades vendidas em 2025 e até um bilhão de robôs em circulação até 2050, movimentando um mercado de US$ 5 trilhões. No entanto, a realidade atual é bem diferente: quase não há implantações comerciais relevantes, e a maioria dos projetos permanece em fase piloto. Ainda não existe uma aplicação que justifique a adoção massiva, o que transforma a aposta chinesa em mais um exercício de projeção do que uma realidade consolidada.
Entre visão e exagero
Enquanto empresas chinesas como Xiaomi e Honor entram no setor, a europeia Neura Robotics promete lançar em 2026 o modelo doméstico 4NE1, avaliado em cerca de 60 mil euros. Para alguns, ele pode ser o “iPhone da robótica”; para outros, como a especialista Melonee Wise, a inteligência artificial atual ainda não é robusta o suficiente para sustentar esse mercado. A China pode estar construindo o futuro da robótica — ou apenas encenando um espetáculo grandioso sem bases sólidas.