A corrida global pela inteligência artificial exige infraestrutura gigantesca para processar e armazenar dados. No centro dessa revolução estão os data centers — enormes instalações cheias de servidores que operam continuamente para treinar e executar modelos de IA. No entanto, além da enorme demanda por eletricidade, esses centros também dependem de outro recurso essencial: água. Um novo estudo sugere que esse consumo pode crescer a ponto de se tornar um dos principais obstáculos para a expansão da IA.
Por que data centers consomem tanta água
Data centers funcionam 24 horas por dia e concentram milhares de servidores, equipamentos de rede e sistemas de armazenamento. Todo esse hardware gera grandes quantidades de calor.
Para evitar falhas e manter os sistemas funcionando com segurança, é necessário resfriar constantemente esses equipamentos. Entre as técnicas mais eficientes está o resfriamento líquido, que utiliza água para remover o calor gerado pelas máquinas.
Muitas empresas afirmam utilizar sistemas de circuito fechado, que reciclariam boa parte da água usada. No entanto, mesmo nesses sistemas, o consumo pode continuar elevado. Isso acontece porque muitos data centers utilizam torres de resfriamento evaporativo, nas quais parte da água evapora para dissipar o calor.
Durante períodos de temperatura extrema — como nos dias mais quentes do verão — a demanda pode disparar.
Segundo o estudo, um data center moderno de grande porte pode exigir mais de 1 milhão de galões de água por dia em períodos de pico. Em alguns projetos planejados, esse número pode chegar a 8 milhões de galões diários.
A expansão da IA está ampliando o problema
O estudo foi liderado pelo pesquisador Shaolei Ren, professor associado de engenharia elétrica e computação da University of California, Riverside.
Os resultados foram divulgados no repositório científico arXiv e ainda não passaram por revisão por pares.
Para estimar o impacto da expansão da IA, os pesquisadores analisaram dados públicos, incluindo registros governamentais e informações de sistemas de abastecimento de água.
A conclusão é preocupante: se o atual padrão de consumo continuar, os data centers dos Estados Unidos poderão precisar entre 697 milhões e 1,45 bilhão de galões adicionais de água por dia até 2030.
Esse volume é comparável ao abastecimento diário da cidade de New York City.
Um gargalo invisível para o setor de tecnologia
O estudo também aponta que a capacidade dos sistemas públicos de água pode se tornar um gargalo crítico para o crescimento da indústria de IA.
Sistemas de abastecimento são projetados para suportar picos de consumo com segurança. Por isso, a demanda máxima — e não apenas o consumo médio — é um fator essencial no planejamento da infraestrutura.
No entanto, muitas empresas de tecnologia divulgam apenas o uso anual total de água, sem informar o consumo máximo diário.
Se novas instalações forem construídas sem expansão da infraestrutura hídrica, isso pode gerar diversos problemas:
- aumento de custos para comunidades locais
- atrasos em projetos de data centers
- redução da eficiência operacional
- maior pressão sobre redes elétricas
Quando a água não está disponível, alguns data centers precisam recorrer ao resfriamento a ar, que é muito menos eficiente e aumenta o consumo de energia.
Quem paga pela infraestrutura?
Outro ponto sensível é o custo de expandir os sistemas de água.
De acordo com o estudo, a construção da infraestrutura necessária para atender à demanda dos data centers pode custar entre 10 bilhões e 58 bilhões de dólares.
Em muitos casos, as comunidades locais acabam arcando com parte desses custos.
Para evitar esse cenário, os pesquisadores defendem parcerias entre empresas de tecnologia e municípios para financiar melhorias na infraestrutura hídrica.
Segundo Ren, a indústria precisa assumir parte dessa responsabilidade:
“Não vejo como as comunidades conseguiriam pagar por esse tipo de expansão sozinhas. Precisamos de financiamento e apoio das empresas.”
Um desafio crescente para a era da IA
À medida que data centers continuam se espalhando pelos Estados Unidos e pelo mundo, questões relacionadas à água podem se tornar tão importantes quanto o consumo de energia.
A inteligência artificial promete transformar setores inteiros da economia — mas também exige uma infraestrutura física gigantesca.
Se nada mudar, o crescimento da IA poderá enfrentar um limite inesperado: a disponibilidade de água.
E esse impacto não será sentido apenas pelas empresas de tecnologia, mas também pelas comunidades onde esses data centers estão sendo construídos.