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Tecnologia

A sede oculta da IA: data centers dos EUA podem consumir tanta água quanto Nova York até 2030, aponta estudo

A expansão da inteligência artificial está criando um novo desafio ambiental pouco discutido: o consumo de água. Um estudo liderado por pesquisadores da University of California, Riverside indica que, até 2030, os data centers americanos poderão exigir capacidade adicional de água equivalente ao abastecimento diário de New York City.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A corrida global pela inteligência artificial exige infraestrutura gigantesca para processar e armazenar dados. No centro dessa revolução estão os data centers — enormes instalações cheias de servidores que operam continuamente para treinar e executar modelos de IA. No entanto, além da enorme demanda por eletricidade, esses centros também dependem de outro recurso essencial: água. Um novo estudo sugere que esse consumo pode crescer a ponto de se tornar um dos principais obstáculos para a expansão da IA.

Por que data centers consomem tanta água

Data centers funcionam 24 horas por dia e concentram milhares de servidores, equipamentos de rede e sistemas de armazenamento. Todo esse hardware gera grandes quantidades de calor.

Para evitar falhas e manter os sistemas funcionando com segurança, é necessário resfriar constantemente esses equipamentos. Entre as técnicas mais eficientes está o resfriamento líquido, que utiliza água para remover o calor gerado pelas máquinas.

Muitas empresas afirmam utilizar sistemas de circuito fechado, que reciclariam boa parte da água usada. No entanto, mesmo nesses sistemas, o consumo pode continuar elevado. Isso acontece porque muitos data centers utilizam torres de resfriamento evaporativo, nas quais parte da água evapora para dissipar o calor.

Durante períodos de temperatura extrema — como nos dias mais quentes do verão — a demanda pode disparar.

Segundo o estudo, um data center moderno de grande porte pode exigir mais de 1 milhão de galões de água por dia em períodos de pico. Em alguns projetos planejados, esse número pode chegar a 8 milhões de galões diários.

A expansão da IA está ampliando o problema

O estudo foi liderado pelo pesquisador Shaolei Ren, professor associado de engenharia elétrica e computação da University of California, Riverside.

Os resultados foram divulgados no repositório científico arXiv e ainda não passaram por revisão por pares.

Para estimar o impacto da expansão da IA, os pesquisadores analisaram dados públicos, incluindo registros governamentais e informações de sistemas de abastecimento de água.

A conclusão é preocupante: se o atual padrão de consumo continuar, os data centers dos Estados Unidos poderão precisar entre 697 milhões e 1,45 bilhão de galões adicionais de água por dia até 2030.

Esse volume é comparável ao abastecimento diário da cidade de New York City.

Um gargalo invisível para o setor de tecnologia

O estudo também aponta que a capacidade dos sistemas públicos de água pode se tornar um gargalo crítico para o crescimento da indústria de IA.

Sistemas de abastecimento são projetados para suportar picos de consumo com segurança. Por isso, a demanda máxima — e não apenas o consumo médio — é um fator essencial no planejamento da infraestrutura.

No entanto, muitas empresas de tecnologia divulgam apenas o uso anual total de água, sem informar o consumo máximo diário.

Se novas instalações forem construídas sem expansão da infraestrutura hídrica, isso pode gerar diversos problemas:

  • aumento de custos para comunidades locais

  • atrasos em projetos de data centers

  • redução da eficiência operacional

  • maior pressão sobre redes elétricas

Quando a água não está disponível, alguns data centers precisam recorrer ao resfriamento a ar, que é muito menos eficiente e aumenta o consumo de energia.

Quem paga pela infraestrutura?

Outro ponto sensível é o custo de expandir os sistemas de água.

De acordo com o estudo, a construção da infraestrutura necessária para atender à demanda dos data centers pode custar entre 10 bilhões e 58 bilhões de dólares.

Em muitos casos, as comunidades locais acabam arcando com parte desses custos.

Para evitar esse cenário, os pesquisadores defendem parcerias entre empresas de tecnologia e municípios para financiar melhorias na infraestrutura hídrica.

Segundo Ren, a indústria precisa assumir parte dessa responsabilidade:

“Não vejo como as comunidades conseguiriam pagar por esse tipo de expansão sozinhas. Precisamos de financiamento e apoio das empresas.”

Um desafio crescente para a era da IA

À medida que data centers continuam se espalhando pelos Estados Unidos e pelo mundo, questões relacionadas à água podem se tornar tão importantes quanto o consumo de energia.

A inteligência artificial promete transformar setores inteiros da economia — mas também exige uma infraestrutura física gigantesca.

Se nada mudar, o crescimento da IA poderá enfrentar um limite inesperado: a disponibilidade de água.

E esse impacto não será sentido apenas pelas empresas de tecnologia, mas também pelas comunidades onde esses data centers estão sendo construídos.

 

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