Pular para o conteúdo
Ciência

Uma startup quer instalar data centers dentro de turbinas eólicas no mar para alimentar a inteligência artificial com energia limpa

Com o crescimento explosivo da inteligência artificial, o consumo de energia dos data centers disparou. Uma startup da Califórnia propõe uma solução incomum: instalar centros de computação dentro das estruturas de turbinas eólicas flutuantes no oceano, usando energia renovável e a água do mar para resfriamento natural.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A corrida global pela inteligência artificial está criando uma nova pressão sobre a infraestrutura energética do planeta. Data centers, que alimentam sistemas de IA e serviços digitais, consomem quantidades enormes de eletricidade. Em busca de alternativas mais sustentáveis, algumas empresas olham para o espaço — mas outras acreditam que a solução está no oceano. Uma startup americana apresentou um projeto que combina turbinas eólicas offshore com data centers submersos, criando uma espécie de “fábrica de IA” movida por energia renovável.

A ideia: colocar data centers dentro de turbinas eólicas

A proposta vem da Aikido Technologies, uma startup da Califórnia especializada em energia eólica flutuante. A empresa revelou um conceito em que data centers seriam instalados dentro das estruturas submersas que mantêm as turbinas offshore flutuando.

Essas estruturas funcionam como grandes tanques de lastro que estabilizam a plataforma da turbina no oceano. A inovação da empresa consiste em usar a parte superior desses tanques para instalar salas de servidores.

Segundo o projeto, cada plataforma poderá combinar uma turbina eólica de cerca de 15 a 18 megawatts com infraestrutura capaz de fornecer entre 10 e 12 megawatts de capacidade de computação para inteligência artificial.

A empresa pretende testar um protótipo inicial de 100 quilowatts na costa da Noruega ainda este ano.

Energia renovável para resolver o problema da IA

A expansão dos data centers está gerando preocupações crescentes sobre o consumo energético da indústria tecnológica.

Somente nos Estados Unidos, esses centros de processamento consumiram cerca de 183 terawatt-hora de eletricidade em 2024, o equivalente a aproximadamente 4% de toda a energia do país naquele ano.

Se o crescimento continuar no ritmo atual, esse consumo pode mais que dobrar até o final da década.

A estratégia da Aikido é aproximar fisicamente a geração de energia renovável e a infraestrutura de computação. Ao instalar os data centers diretamente nas plataformas eólicas, a empresa elimina parte da necessidade de transmissão elétrica pela rede tradicional.

Isso poderia reduzir tanto o impacto ambiental quanto a pressão sobre as redes elétricas.

O oceano como sistema natural de resfriamento

Outro desafio importante dos data centers é o resfriamento. Servidores que executam modelos de inteligência artificial geram enormes quantidades de calor e exigem sistemas sofisticados para manter a temperatura sob controle.

O design da Aikido pretende usar o próprio oceano como dissipador térmico.

Os tanques de lastro que sustentam as turbinas chegam a cerca de 20 metros de profundidade. A empresa planeja transferir o calor dos servidores através das paredes de aço dessas estruturas, permitindo que a água do mar absorva a energia térmica.

Segundo a companhia, o impacto térmico no ambiente marinho seria limitado a poucos metros ao redor da plataforma.

Uma nova geração de “fábricas de IA”

Se o conceito funcionar, a empresa imagina parques eólicos offshore capazes de hospedar enormes quantidades de computação.

A meta de longo prazo é criar instalações que suportem desde 30 megawatts até mais de 1 gigawatt de capacidade computacional dedicada à inteligência artificial.

Esses complexos poderiam se tornar centros de processamento distribuídos no oceano, aproveitando energia renovável abundante e reduzindo o impacto ambiental da indústria tecnológica.

Nem tudo são vantagens

Apesar do potencial, a ideia enfrenta desafios importantes.

O setor de energia eólica offshore flutuante ainda passa por dificuldades, com custos elevados, atrasos em projetos e redução de subsídios governamentais em vários países.

Além disso, o ambiente marinho apresenta dificuldades técnicas significativas. A salinidade da água, detritos e condições climáticas extremas podem danificar equipamentos eletrônicos ou estruturas metálicas.

Especialistas também apontam possíveis desafios regulatórios, já que governos e órgãos ambientais podem exigir estudos detalhados sobre o impacto térmico e ecológico das estruturas.

Um experimento que pode redefinir a infraestrutura digital

Outras empresas já experimentaram instalar data centers submersos ou integrados a infraestrutura energética, mas a proposta de incorporar diretamente a computação dentro de turbinas eólicas offshore ainda é relativamente inédita.

O teste previsto para a Noruega deve ajudar a responder se essa abordagem é viável em larga escala.

Se funcionar, a ideia pode inaugurar uma nova fase na infraestrutura digital global — em que servidores, turbinas eólicas e inteligência artificial passam a compartilhar o mesmo espaço no oceano.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados