Existe uma faixa da atmosfera terrestre que permanece praticamente fora do alcance da tecnologia atual. Ela está alta demais para aviões e balões meteorológicos, mas baixa demais para satélites convencionais. Esse vazio tecnológico dificulta o estudo de fenômenos fundamentais para entender o clima e a dinâmica da atmosfera. Agora, uma proposta baseada em um fenômeno físico pouco conhecido pode mudar esse cenário com veículos que não precisam de motores nem de combustível para voar.
A mesosfera continua sendo um dos lugares menos explorados da atmosfera

Entre aproximadamente 50 e 100 quilômetros de altitude, encontra-se a mesosfera, uma região considerada uma verdadeira fronteira entre a atmosfera e o espaço.
Apesar de sua importância científica, ela continua sendo uma das áreas mais difíceis de estudar.
Aviões não conseguem alcançar essa altitude.
Balões meteorológicos também ficam abaixo dessa faixa.
Já os satélites precisam permanecer em órbitas muito mais elevadas para não perder velocidade rapidamente devido ao atrito com a atmosfera.
Como resultado, essa região permanece relativamente pouco observada.
No entanto, compreender melhor o comportamento da mesosfera pode trazer benefícios importantes para a ciência.
Os dados obtidos nessa camada ajudam a aprimorar modelos meteorológicos, previsões climáticas e estudos sobre a circulação atmosférica, além de fornecer informações valiosas sobre processos que conectam a atmosfera terrestre ao ambiente espacial.
Foi justamente esse desafio que motivou pesquisadores a imaginar uma solução completamente diferente.
Um fenômeno quase invisível pode manter essas aeronaves no ar
A equipe liderada por Benjamin Schafer, atualmente ligado à empresa norte-americana Rarified Technologies e anteriormente pesquisador da Universidade Harvard, desenvolveu um conceito baseado em um fenômeno físico chamado fotoforese.
Embora pouco conhecido fora da comunidade científica, esse efeito pode produzir uma pequena força capaz de levantar objetos extremamente leves.
O princípio é relativamente simples.
Quando um objeto apresenta uma face mais quente que a outra, as moléculas de gás presentes ao seu redor colidem com intensidades diferentes em cada lado.
Essa diferença gera um impulso contínuo.
Em condições normais da superfície terrestre, o efeito é praticamente imperceptível.
Mas na atmosfera extremamente rarefeita da mesosfera ele se torna muito mais eficiente.
Os pesquisadores projetaram microplanadores cuja parte inferior absorve intensamente a luz solar, aquecendo-se mais do que a face superior.
Essa diferença de temperatura cria uma força fotoforética suficiente para superar o peso dessas estruturas ultraleves.
O resultado é surpreendente: os pequenos veículos conseguem permanecer suspensos sem motores, hélices, combustível ou qualquer sistema convencional de propulsão.
Os pequenos planadores poderiam voar durante meses
Os protótipos desenvolvidos são minúsculos e extremamente leves.
Segundo os pesquisadores, eles poderiam permanecer em operação durante vários meses, deslocando-se de forma passiva na mesosfera enquanto são monitorados remotamente.
O rastreamento ocorreria por meio de radares ou utilizando tecnologia LIDAR instalada em satélites.
Esse sistema utiliza pulsos de laser para medir com precisão a posição dos planadores e acompanhar seus movimentos.
Em uma missão típica, milhares desses microplanadores seriam lançados inicialmente por um balão estratosférico a cerca de 30 quilômetros de altitude.
Outra possibilidade seria utilizá-los em lançamentos realizados por foguetes.
Depois de liberados, eles subiriam sozinhos até sua altitude operacional, entre 90 e 100 quilômetros, graças ao efeito da fotoforese combinado com seu desenho aerodinâmico.
Sem necessidade de motores, todo o deslocamento ocorreria de maneira totalmente autônoma.
A tecnologia pode revolucionar o estudo da atmosfera
O principal objetivo desses veículos não é transportar equipamentos pesados.
Sua função seria atuar como sensores atmosféricos distribuídos em grande quantidade.
Ao acompanhar continuamente suas trajetórias, os cientistas poderiam reconstruir com enorme precisão o comportamento dos ventos em grandes altitudes, identificar gradientes de temperatura e medir variações de pressão atmosférica.
Esse tipo de informação ainda é extremamente difícil de obter utilizando os métodos atuais.
Além disso, a resolução espacial prometida pelos pesquisadores seria inferior a um quilômetro, permitindo observar fenômenos atmosféricos que hoje passam despercebidos.
Outro aspecto importante é o impacto ambiental.
Os microplanadores foram projetados para se desintegrarem de forma segura ao final de sua vida útil, evitando o acúmulo de resíduos na atmosfera.
Seu processo de fabricação também foi pensado para utilizar métodos industriais convencionais, o que facilitaria uma produção em larga escala caso a tecnologia seja aprovada.
A NASA já começou a avaliar o projeto
O conceito despertou interesse suficiente para avançar em novas etapas de avaliação.
Em 2026, a NASA iniciou uma nova fase de estudos sobre esses planadores fotoforéticos, analisando seu potencial para missões científicas voltadas ao estudo da fronteira entre a atmosfera terrestre e o espaço.
Caso os resultados continuem positivos, novos investimentos poderão acelerar o desenvolvimento da tecnologia.
Ainda existem desafios importantes antes que os microplanadores sejam utilizados em missões reais.
Será necessário validar seu comportamento em condições reais de voo, garantir a confiabilidade do rastreamento e comprovar sua durabilidade durante longos períodos de operação.
Mesmo assim, a proposta representa uma abordagem totalmente diferente da exploração atmosférica.
Em vez de depender de motores potentes ou de grandes plataformas espaciais, ela utiliza apenas a luz do Sol e um fenômeno físico quase invisível para explorar uma das regiões mais misteriosas do planeta.
Se essa tecnologia cumprir o que promete, a chamada “terra de ninguém” entre a atmosfera e o espaço poderá finalmente deixar de ser um dos maiores vazios científicos da Terra.
[Fonte: Noticias de la ciencia]