Depois que um furacão perde força, a expectativa é que o pior já tenha passado. O vento diminui, a chuva enfraquece e as equipes de emergência iniciam os trabalhos de recuperação. Mas, em algumas regiões costeiras, o oceano pode guardar uma última surpresa. Pesquisadores descobriram que existe um mecanismo capaz de fazer o nível do mar subir novamente horas depois da tempestade, aumentando o risco de enchentes justamente quando a população acredita estar em segurança.
Um fenômeno pouco conhecido explica por que o mar pode voltar depois da tempestade
Durante décadas, relatos de grandes tempestades que atingiram a costa leste dos Estados Unidos intrigaram cientistas. Em dois furacões históricos que passaram pela região de Long Island, em 1938 e 1944, moradores descreveram uma situação incomum: após a diminuição dos ventos, o nível do mar voltou a subir inesperadamente várias horas depois.
Na época, muitos acreditaram que aquelas ondas tardias poderiam ter sido pequenos tsunamis. No entanto, uma pesquisa recente conduzida por especialistas do Stevens Institute of Technology chegou a uma conclusão diferente.
Segundo o estudo, o responsável não foi um tsunami provocado por terremotos submarinos, mas sim um fenômeno conhecido como seiche da plataforma continental.
Ao contrário dos tsunamis tradicionais, que surgem após deslocamentos bruscos do fundo do oceano causados por terremotos, erupções vulcânicas ou deslizamentos submarinos, os furacões alteram o comportamento do mar por meio da força dos ventos e das mudanças na pressão atmosférica.
Essas condições podem gerar diferentes tipos de ondas, incluindo ressacas, meteotsunamis e seiches. Embora possam produzir efeitos semelhantes em determinadas situações, cada um desses fenômenos possui uma dinâmica completamente diferente.
Enquanto o meteotsunami se propaga como uma sequência de ondas que avançam pelo oceano, o seiche funciona como uma grande oscilação da água, fazendo o mar balançar de um lado para outro durante várias horas.
Foi exatamente esse movimento que os pesquisadores identificaram como responsável pelas inundações tardias registradas após aqueles furacões históricos.
Did you know: Storms can generate tsunami-force waves with almost no warning?
🌊 Meteotsunamis – driven by storms and rapid pressure changes – are a serious and underrecognised coastal hazard, with waves reaching up to 10 metres.
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— UNDRR (@UNDRR) June 18, 2026
O oceano funciona como uma enorme banheira e devolve a água para a costa
Os cientistas explicam que o funcionamento de um seiche pode ser comparado à água dentro de uma banheira.
Quando alguém empurra a água para uma das extremidades e interrompe o movimento, ela retorna na direção oposta e continua oscilando diversas vezes até perder energia.
Durante um furacão acontece algo semelhante. Os ventos extremamente fortes acumulam grandes volumes de água contra a costa. Quando a tempestade perde intensidade ou muda de direção, essa massa líquida deixa de ser empurrada e começa a oscilar entre o litoral e o limite da plataforma continental.
Na região de Nova York, essa plataforma se estende por aproximadamente 160 quilômetros antes de dar lugar às águas profundas do oceano. Ao atingir essa mudança de relevo submarino, a onda é refletida e retorna em direção à costa.
Esse ciclo leva cerca de sete a oito horas para ser completado. Isso significa que o nível do mar pode voltar a subir muito tempo depois da ressaca principal, surpreendendo moradores e equipes de emergência.
Os pesquisadores analisaram dados de 17 marégrafos distribuídos pela costa atlântica dos Estados Unidos entre 1860 e 2024. A análise revelou que esse comportamento ocorreu após cerca de 26% dos ciclones tropicais estudados, mostrando que o fenômeno não é tão raro quanto se imaginava.
O maior risco aparece justamente quando todos acreditam que o perigo terminou
O retorno da água pode ser ainda mais perigoso quando coincide com a maré alta. Nesses casos, uma oscilação relativamente moderada pode provocar novas inundações em áreas costeiras, aumentar a força das correntes em portos e estuários, causar danos a embarcações e afetar túneis, ruas e sistemas de transporte que já haviam iniciado a recuperação.
Os pesquisadores destacam que o aumento do nível médio do mar não torna o fenômeno mais frequente, mas pode ampliar significativamente seus impactos. Com a linha d’água naturalmente mais elevada, qualquer nova oscilação passa a ter maior capacidade de ultrapassar barreiras costeiras e atingir regiões antes consideradas seguras.
O maior desafio está no fator psicológico. Depois da passagem do furacão, a tendência natural é acreditar que o risco terminou. Equipes de resgate começam a trabalhar, moradores deixam abrigos e diversas atividades são retomadas.
Entretanto, o estudo mostra que esse aparente período de tranquilidade pode esconder uma nova ameaça.
Compreender esse “segundo impacto” permitirá aperfeiçoar os sistemas de alerta, melhorar os protocolos de evacuação e reduzir os prejuízos em cidades costeiras densamente povoadas. Afinal, em alguns furacões, o momento mais perigoso pode não acontecer durante a tempestade, mas horas depois, quando quase ninguém espera que o mar volte a avançar.