A Terra nunca foi uma esfera perfeita. Nosso planeta é ligeiramente achatado nos polos e mais largo na região do equador. Agora, pesquisadores descobriram que esse formato está mudando — e que a transformação parece ter acelerado desde o final da década de 1990.
Um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth utilizou medições de sistemas globais de navegação por satélite, como o GPS, para acompanhar movimentos verticais da superfície terrestre. Os resultados indicam que os polos estão se elevando enquanto regiões equatoriais apresentam um movimento contrário.
Na prática, isso significa que o planeta está ficando um pouco menos achatado e, portanto, ligeiramente mais próximo do formato de uma esfera.
Satélites conseguem medir mudanças de poucos milímetros

A pesquisa foi liderada por C. Kotsakis, do Departamento de Geodésia e Topografia da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na Grécia.
O método utiliza estações GNSS espalhadas pelo planeta. Esses equipamentos conseguem detectar com precisão milimétrica movimentos do solo para cima ou para baixo.
A partir dessas medições, os pesquisadores construíram mapas globais das velocidades verticais da superfície terrestre.
Depois, calcularam um parâmetro conhecido como coeficiente zonal de grau 2. Ele permite representar matematicamente as mudanças no achatamento do planeta.
Em termos mais simples, os cientistas compararam quanto as regiões polares estão subindo com o movimento observado próximo ao equador.
Existe, porém, um problema: as estações GNSS não estão distribuídas uniformemente pelo planeta.
Há grande concentração desses equipamentos na América do Norte, Europa e Austrália, enquanto regiões como Groenlândia e Antártida possuem cobertura muito menor. Os oceanos representam uma dificuldade ainda maior.
Para compensar essa desigualdade, os pesquisadores utilizaram técnicas matemáticas para interpolar os dados e construir uma grade global.
Os polos estão subindo e o equador está descendo
Os pesquisadores analisaram medições referentes ao período entre 1997 e 2015. Diferentes métodos utilizados no estudo produziram uma tendência semelhante.
Entre 1997 e 2000, a taxa estimada de expansão polar era de aproximadamente 0,5 milímetro por ano.
No período entre 2011 e 2015, esse valor chegou perto de 1 milímetro por ano.
Ao mesmo tempo, a região equatorial apresentou movimento na direção oposta, com taxas de contração entre aproximadamente 0,8 e 1 milímetro por ano.
Quando os dois fenômenos são considerados em conjunto, o resultado aponta para uma redução progressiva do achatamento da Terra sólida.
O estudo estima que essa mudança está acelerando a aproximadamente 0,4 milímetro por ano a cada década.
A aceleração individual dos movimentos de expansão polar e contração equatorial ficou próxima de 0,25 milímetro por ano por década.
São valores minúsculos em comparação com as dimensões da Terra. Ainda assim, instrumentos modernos conseguem detectá-los e acompanhar sua evolução ao longo dos anos.
O derretimento do gelo pode estar por trás da mudança
Parte do movimento da superfície terrestre já era conhecida e está relacionada ao chamado ajuste isostático glacial.
Durante a última Era do Gelo, enormes massas de gelo exerceram pressão sobre a crosta terrestre. Depois que essas geleiras desapareceram, o solo começou lentamente a recuperar sua posição.
Esse processo continua acontecendo milhares de anos depois e provoca movimentos verticais em diferentes regiões do planeta.
O problema é que os modelos de ajuste glacial preveem uma elevação polar inferior a aproximadamente 0,3 milímetro por ano.
As medições observadas pelo GNSS são significativamente maiores.
Isso indica que outro processo pode estar contribuindo para a transformação.
Uma das explicações consideradas pelos pesquisadores é a perda contemporânea de grandes quantidades de gelo na Groenlândia e na Antártida.
Quando enormes massas de gelo desaparecem, a distribuição de peso sobre a superfície terrestre muda. A crosta e as camadas abaixo dela respondem a essa redistribuição por meio de deformações elásticas e viscoelásticas.
A mudança é pequena, mas revela uma transformação planetária

A descoberta não significa que a Terra esteja rapidamente se transformando em uma esfera perfeita.
As mudanças são extremamente pequenas e ocorrem na escala de milímetros por ano. O planeta continuará sendo ligeiramente achatado nos polos e mais largo no equador.
O que chama atenção é a aceleração detectada nas últimas décadas.
Os dados sugerem que processos recentes estão alterando lentamente a geometria da Terra sólida além do que seria esperado apenas pelo reajuste da crosta após a última glaciação.
Se a perda de gelo da Groenlândia e da Antártida estiver contribuindo significativamente para o fenômeno, o estudo mostra uma consequência pouco intuitiva das mudanças que acontecem nas regiões polares.
O derretimento do gelo não altera apenas o nível dos oceanos. Ao redistribuir enormes quantidades de massa pelo planeta, ele também pode estar modificando, milímetro por milímetro, o próprio formato da Terra.
[ Fonte: La Brújula Verde ]