Em plena Guerra Fria, Cuba começou a construir algo que parecia pertencer a um futuro muito diferente: uma grande central nuclear capaz de alterar profundamente sua produção de eletricidade. O projeto envolvia tecnologia soviética, milhares de trabalhadores e uma cidade planejada especialmente para abrigá-los. Mas uma sucessão de acontecimentos transformou aquela promessa em uma das obras inacabadas mais curiosas do Caribe.
O projeto que deveria mudar a energia de Cuba
A história começou em 1976, quando Cuba e União Soviética firmaram um acordo para construir dois reatores nucleares VVER-440 em Juraguá, próximo à Baía de Cienfuegos, na região central-sul da ilha.
O primeiro reator começou a ser construído em 1983, seguido pelo segundo em 1985. A expectativa era enorme: quando concluída, a central poderia fornecer até 15% da eletricidade de Cuba e reduzir a dependência do petróleo importado.
A União Soviética forneceria grande parte dos equipamentos e componentes, enquanto Cuba avançaria com a construção da infraestrutura necessária.
Para sustentar o empreendimento, surgiu também uma estrutura que ia muito além dos próprios reatores.
Próximo à futura usina foi planejada a chamada Cidade Nuclear, um complexo residencial destinado a trabalhadores cubanos e soviéticos envolvidos no projeto. A área chegou a receber moradores e infraestrutura própria, embora a central para a qual tudo aquilo havia sido planejado jamais entrasse em operação.
Por alguns anos, parecia que Cuba estava construindo não apenas uma usina, mas uma nova etapa de sua infraestrutura energética.
Então começaram a surgir obstáculos que nenhum cronograma conseguiria resolver facilmente.

A Guerra Fria deixou o projeto ainda mais complicado
A localização de Juraguá acrescentava uma dimensão geopolítica ao empreendimento.
A central ficava a aproximadamente 320 quilômetros dos Cayos da Flórida, colocando um projeto nuclear apoiado pela União Soviética relativamente próximo do território estadunidense.
Washington acompanhava a construção com preocupação, embora a Comissão Reguladora Nuclear dos Estados Unidos tenha informado ao Congresso, em 1986, que o projeto cubano apresentava características mais próximas de usinas ocidentais do que do desenho utilizado em Chernobyl.
O próprio desastre de Chernobyl, naquele ano, mudou a percepção mundial sobre os riscos da energia nuclear e aumentou a atenção sobre projetos como o de Juraguá.
Mas o golpe decisivo não veio de um acidente nuclear.
Veio da política.
A União Soviética entrou em colapso no início dos anos 1990, eliminando justamente o principal apoio financeiro e técnico que sustentava a construção. Em 2 de setembro de 1992, o projeto foi formalmente interrompido.
Até aquele momento, estima-se que cerca de US$ 1,1 bilhão já tivesse sido investido.
Cuba e a Rússia ainda tentaram encontrar alternativas para retomar a obra durante a década de 1990. No entanto, em 2000, os dois governos decidiram abandonar definitivamente o projeto.
Os dois reatores que deveriam produzir eletricidade nunca chegaram a funcionar.
Uma cidade inteira ficou como lembrança de um futuro que não aconteceu
O abandono deixou para trás uma enorme quantidade de concreto, estruturas industriais e instalações construídas para uma central que jamais foi concluída.
A Cidade Nuclear também se tornou parte dessa história. Planejada para atender aos trabalhadores da futura usina, ela representa uma lembrança física da escala que o empreendimento chegou a alcançar.
Para quem participou da construção, o abandono teve um significado muito diferente do que aparece nos registros históricos.
Décadas de trabalho e investimentos terminaram sem que os reatores produzissem sequer um quilowatt para a população cubana.
E existe uma ironia particularmente forte no destino do projeto.
Na estrutura de concreto ainda aparece uma mensagem em russo e espanhol: “Que o átomo seja operário e não soldado!”
Em Juraguá, porém, o átomo acabou não desempenhando nenhum dos dois papéis.
Enquanto outras nações americanas consolidaram programas nucleares, a grande aposta cubana permaneceu incompleta. Hoje, as ruínas de Juraguá funcionam como um registro concreto de uma época em que energia, tecnologia e geopolítica estavam profundamente misturadas.
O projeto não fracassou por uma única razão. A Guerra Fria, as preocupações após Chernobyl, as dificuldades econômicas e, principalmente, o desaparecimento da União Soviética foram se acumulando até tornar impossível aquilo que décadas antes parecia um projeto energético destinado ao futuro.