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Ciência

A verdade por trás da uva-passa que divide o Natal brasileiro

Ela divide a família, gera discussões na ceia e some misteriosamente do prato de alguns convidados. A uva-passa é, sem dúvida, a fruta mais polêmica do Natal brasileiro. Mas por trás da fama controversa existe uma cadeia de produção bem mais complexa do que parece — e que explica por que quase toda uva-passa consumida no Brasil vem de outros países.
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Tempo de leitura: 3 minutos

De onde vem a uva-passa que a gente come

Apesar de o Brasil ser um grande produtor de uvas, a uva-passa que chega à mesa do brasileiro é majoritariamente importada. A produção nacional é pequena e concentrada em iniciativas pontuais. O motivo principal está no clima e no custo do processo de secagem.

Segundo Reginaldo Teodoro de Souza, pesquisador da Embrapa, o país não oferece condições ideais para produzir uva-passa em larga escala. “Temos apenas pequenas produções feitas por poucas pessoas”, explica.

Clima e custo: os dois grandes obstáculos

A verdade por trás da uva-passa que divide o Natal brasileiro
© Pexels

Para virar uva-passa, a fruta precisa perder quase toda a água. E isso não acontece em qualquer lugar. O clima ideal é o desértico, com calor intenso e umidade muito baixa. É justamente esse cenário que favorece países como Turquia e Irã.

O Nordeste brasileiro até tem clima seco, mas não chega a ser desértico. A umidade é maior, o que dificulta a secagem natural. Já a alternativa de usar fornos esbarra em outro problema: o custo da energia elétrica no Brasil, que torna o processo caro demais.

Argentina lidera as importações

Entre janeiro e novembro de 2024, o Brasil importou mais de 20,7 mil toneladas de uva-passa, movimentando cerca de US$ 48 milhões, segundo dados do Ministério da Agricultura. Mais de 73% desse volume veio da Argentina.

A liderança argentina se explica por dois fatores principais: proximidade logística e vantagens comerciais do Mercosul, que reduz tarifas entre os países membros. Além disso, a Argentina está entre os dez maiores produtores de uva-passa do mundo.

Colher no ponto certo faz toda a diferença

Um detalhe essencial para a qualidade da uva-passa é o momento da colheita. A uva precisa estar madura, como se fosse consumida fresca. Colher antes da hora resulta em passas ácidas e sem sabor.

Do ponto de vista nutricional, não há grandes perdas. A uva-passa mantém praticamente todos os nutrientes da fruta fresca. A diferença é a água: depois da secagem, ela fica com apenas cerca de 33% do peso original.

Como a uva vira uva-passa

Existem basicamente duas formas de secagem: ao sol ou em fornos industriais.

Na secagem natural, as uvas são espalhadas em esteiras ou plataformas, como acontece com o café. Elas precisam ser reviradas periodicamente para secar por igual. Esse método depende muito do clima e funciona melhor em regiões desérticas.

Já a secagem em fornos permite maior controle do processo, mas é lenta e cara. Antes de entrar nos equipamentos, as uvas são lavadas e recebem um tratamento para remover a oleosidade da casca, acelerando a desidratação. Em alguns casos, usa-se anidrido sulfuroso para preservar a cor. O processo completo pode levar até 90 dias.

Por que produzir no Brasil não compensa

No fim das contas, a conta não fecha. A uva-passa importada chega ao Brasil mais barata do que a produzida localmente. Países como a Turquia conseguem produzir em grande escala, com clima favorável e custos menores.

Amor ou ódio, ela segue firme na ceia

Gostando ou não, a uva-passa continua sendo presença garantida no Natal brasileiro. Agora que você sabe como ela é produzida — e por que quase sempre vem de fora — talvez a discussão na ceia fique mais informada. Ou não. Afinal, algumas tradições parecem imunes até à ciência.

[Fonte: G1 – Globo]

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