De vila esquecida a porta de entrada de Vaca Muerta
Até 2013, Añelo era praticamente um ponto fora do mapa do petróleo em Neuquén. A província já conhecia o setor desde o início do século 20, com cidades moldadas pela exploração de gás e petróleo, como Plaza Huincul e Rincón de los Sauces. Añelo, prestes a completar 100 anos, seguia à margem dessa história.
Tudo mudou quando YPF e Chevron assinaram o acordo para explorar petróleo e gás não convencionais em Vaca Muerta. Em pouco tempo, as ruas de terra que levavam à zona rural passaram a receber vans brancas de empresas, caminhões pesados e um trânsito que lembra corredor logístico, não cidade pequena.
O borracheiro Favio Javier Jiménez viu a transformação de perto. Ele chegou a Añelo em 1994, quando “não tinha gás, nem água, e a luz caía o tempo todo”. A borracharia erguida “no meio das dunas” hoje está cercada por asfalto, prédios e congestionamento diário. Com Vaca Muerta respondendo por mais da metade do gás e do petróleo da Argentina, Añelo virou o símbolo local desse novo ciclo.
O fracking, a areia e estradas que não deram conta

O coração tecnológico de Vaca Muerta é o fracking, a extração não convencional de petróleo e gás que fratura a rocha-mãe a cerca de 3 mil metros de profundidade usando água em enormes quantidades. Para manter as fendas abertas, toneladas de areia especial são injetadas junto com o fluido.
Essa areia não existe em Neuquén: vem da província de Entre Ríos, a mais de 1,3 mil km. Como não há trem ligando as regiões, tudo é feito por caminhão. Resultado: a rodovia 7, que liga Neuquén a Añelo, virou um funil de veículos pesados.
As estradas, pensadas para atender chácaras e áreas rurais, não aguentaram o tranco do boom de Vaca Muerta. Vieram as rachaduras, a “emergência de tráfego” e um número de acidentes e mortes incomum para o padrão local. Em apenas seis meses, 10 pessoas morreram em um trecho de 50 km da rodovia 7.
A pressão abriu um debate que ainda incomoda: quem deveria bancar a infraestrutura da região — o governo, que arrecada royalties do petróleo, ou as próprias petroleiras, que saturam as estradas e fazem Vaca Muerta girar?
Enquanto a discussão segue, Jiménez abriu uma segunda borracharia, desta vez focada em caminhões, no planalto onde a “nova Añelo” começou a subir.
A cidade em dois andares: centro antigo e planalto
A transformação de Vaca Muerta não foi só econômica: foi urbana. O velho núcleo às margens do rio Neuquén ganhou, no alto do platô árido, uma espécie de segunda cidade. Sem árvores, sem rio, com muito vento e poeira, mas com o que mais importa no boom do petróleo: espaço para alojar gente.
Segundo o prefeito Fernando Banderet, Añelo tem hoje cerca de 12 mil moradores fixos — o dobro de poucos anos atrás. A isso se somam aproximadamente 15 mil trabalhadores de Vaca Muerta que “pousam” na cidade em regime de turnos. A equação é clara: muitas camas, poucas raízes.
Para dar conta da demanda, o planalto foi loteado, primeiro com bairros sociais, depois com terrenos maiores adquiridos por construtoras. O modelo é direto: apartamentos compactos, dois quartos para quatro pessoas, cozinha mínima, churrasqueira e dois banheiros para acelerar a rotina de quem começa o turno de madrugada.
Os preços mostram o efeito Vaca Muerta. Um imóvel simples para trabalhadores do petróleo pode alcançar aluguel de 2,8 milhões de pesos, contra pouco mais de 1 milhão em Neuquén capital. Viver perto de Vaca Muerta ficou caro — caro demais para quem não está na linha de frente do petróleo.
Escola cheia, rotatividade alta e novos sotaques
Na outra ponta da cidade, a escola secundária CPEM 39 virou termômetro social do boom. O diretor José Luis Cabrera lembra que, em 2018, eram cerca de 270 estudantes. Hoje, são mais de 500, sem que a infraestrutura acompanhasse o salto. Resultado: contêineres improvisados no pátio viraram sala de aula.
A cada mês chegam de 10 a 12 novos alunos, vindos não só de várias regiões da Argentina, como do Paraguai, da Bolívia e da República Dominicana. Muitos não ficam: acompanham os pais em transferências constantes entre cidades de petróleo e gás.
O avanço de Vaca Muerta mudou até o horizonte de futuro dos jovens. Antes, universidade, cursos técnicos ou escola de polícia eram vistos como caminho para “sair de Añelo”. Nos últimos três ou quatro anos, o petróleo passou a ser o objetivo imediato. Meninos querem trabalhar nas empresas assim que completam 18 ou 19 anos; meninas relatam que precisam estudar mais para ocupar funções ligadas à higiene, segurança ou serviços ao redor da indústria — ou sonham em se casar com alguém do setor.
Para uma cidade que cresce à sombra de Vaca Muerta, a escola virou palco de um dilema: como falar dos impactos ambientais do fracking — consumo de água, risco de contaminação, aumento de atividade sísmica — sem ignorar que o salário do petróleo paga a matrícula, o material escolar e o almoço?
Saúde, moradia e quem fica de fora do boom
Enquanto os salários da indústria podem chegar a 10 ou 12 milhões de pesos, servidores públicos, médicos e policiais começam ganhando em torno de 500 mil pesos e, com sorte, chegam a 2 milhões após muitos anos de trabalho. Viver em Añelo com esse padrão de renda é outra história.
Um exemplo citado por Cabrera é de uma assessora pedagógica que paga 1 milhão de pesos por um apartamento de um cômodo e banheiro — metade do salário. Não por acaso, a maioria dos professores continua vivendo em cidades do “Vale”, a mais de 100 km, dependendo de ônibus oferecidos pelo governo para chegar à escola todos os dias.
Na saúde, o cenário se repete. O hospital público de Añelo tem clínicos gerais, mas quase nenhum especialista fixo. Atrair pediatras, ginecologistas e outros profissionais é difícil: o salário é parecido ao de cidades mais estruturadas e turísticas, enquanto Vaca Muerta oferece custo de vida alto, vento constante, serviços limitados e infraestrutura urbana ainda em construção.
A primeira clínica particular chegou recentemente ao planalto, mas isso não resolve o problema central: como transformar Vaca Muerta em lugar onde as pessoas que não vivem do petróleo também queiram — e consigam — ficar?
Vaca muerta como promessa de futuro (e alerta)
Do ponto de vista macroeconômico, Vaca Muerta já mudou a Argentina. Depois de décadas importando energia, o país alcançou superávit na balança energética e agora mira a exportação de gás e petróleo como fonte de dólares para aliviar uma economia cronicamente em crise.
No chão de Añelo, porém, Vaca Muerta é menos abstração e mais cotidiano: estradas esburacadas, caminhões, aluguel nas alturas, escola inchada, rodízio de famílias, falta de médicos, bares lotados de trabalhadores exaustos, trailers vendendo sanduíche para caminhoneiro que reclama do preço — e confessa que sente falta de casa.
O boom do petróleo em Vaca Muerta abriu uma fronteira de trabalho impressionante, do engenheiro ao vendedor de tortas fritas. Mas também escancarou desigualdades e deixou claro que a nova riqueza tem um custo social e ambiental que ainda está sendo contado.
No fim das contas, Vaca Muerta virou símbolo de uma pergunta que não diz respeito só à Argentina: até que ponto um país em crise aceita apostar tudo no petróleo para tentar salvar o presente — mesmo sabendo que o futuro, cedo ou tarde, vai cobrar a conta?
[Fonte: Correio Braziliense]