Trocar açúcar por adoçante parece uma maneira simples de reduzir calorias. Mas os efeitos dessa escolha não se resumem ao valor energético dos alimentos. Pesquisadores investigam como essas substâncias interagem com os microrganismos do intestino e com o metabolismo. Um estudo publicado em 2022 trouxe evidências dessa relação, mas não permite concluir que todos os adoçantes tenham o mesmo efeito ou que seu consumo cause diabetes.
O que os pesquisadores observaram

O estudo publicado na revista Cell acompanhou 120 adultos saudáveis, distribuídos em seis grupos. Quatro receberam sacarina, sucralose, aspartame ou estévia durante duas semanas. Os outros dois serviram como comparação. As quantidades utilizadas ficaram abaixo da ingestão diária aceitável.
Os quatro adoçantes provocaram alterações distintas na microbiota. Entretanto, os resultados sobre a glicose não foram iguais: sacarina e sucralose prejudicaram significativamente a resposta glicêmica na análise dos respectivos grupos.
Essa diferença impede tratar os substitutos do açúcar como uma categoria uniforme. No experimento, modificar a microbiota não significou necessariamente produzir o mesmo efeito sobre o controle da glicose.
A resposta também depende da pessoa
Os pesquisadores observaram diferenças importantes entre os participantes. Segundo o Instituto Weizmann, responsável pela investigação, a composição particular da microbiota ajuda a explicar por que algumas pessoas responderam mais intensamente que outras.
Para explorar essa relação, a equipe transferiu microrganismos intestinais dos voluntários para camundongos sem microbiota própria. Os animais desenvolveram padrões de tolerância à glicose que, em grande medida, refletiram os resultados dos doadores humanos.
O experimento reforça a participação da microbiota no mecanismo observado. Ainda assim, os próprios autores destacam que as consequências dessas mudanças para a saúde precisam ser investigadas em estudos mais longos. Eles também ressaltam que o trabalho não demonstra que consumir açúcar seja uma alternativa superior.
Por que ainda não existe uma resposta definitiva

Um ensaio de duas semanas não esclarece o que acontece após anos de consumo. Também é necessário considerar o conjunto das pesquisas.
A revisão sistemática da OMS, publicada em abril de 2022, apontou que ensaios clínicos geralmente encontravam pouco impacto dos adoçantes sobre o metabolismo da glicose. Alguns mostravam redução de peso no curto prazo quando seu uso vinha acompanhado de restrição energética.
A organização identificou, porém, incertezas sobre os benefícios duradouros e outros efeitos na saúde. Por isso, afirmar que os cientistas concordam sobre todos os riscos simplifica uma discussão que continua aberta.
O que a OMS recomenda
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde recomendou não utilizar adoçantes sem açúcar como estratégia para controlar o peso ou prevenir doenças crônicas. A orientação é condicional, devido às limitações das evidências, e não se aplica a pessoas com diabetes preexistente.
A recomendação trata dos benefícios esperados dessa estratégia alimentar. Ela não substitui as avaliações toxicológicas nem os limites de ingestão de cada substância.
A proposta da OMS é reduzir a doçura da alimentação como um todo, dando preferência a bebidas sem adoçar e a alimentos com açúcares naturalmente presentes, como frutas.