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Ciência

Treino de força melhora a microbiota intestinal e pode beneficiar até o cérebro, explicam especialistas

Levantar pesos faz muito mais do que fortalecer os músculos. Especialistas explicam como o treino de força estimula a produção de compostos que alimentam bactérias benéficas do intestino, reforçam a barreira intestinal e ainda favorecem a saúde cerebral por meio de diferentes mecanismos biológicos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quem associa a musculação apenas ao ganho de massa muscular está deixando de lado uma série de benefícios menos conhecidos. Além de preservar a força e contribuir para um envelhecimento mais saudável, o treino de resistência também influencia diretamente a microbiota intestinal — o conjunto de microrganismos que vivem no intestino e desempenham um papel essencial na saúde.

Essa relação foi discutida pela neurobióloga Tamara Pazos e pela farmacêutica e nutricionista Marián García, conhecida na Espanha como Boticaria García, durante um encontro promovido pela Activia com médicos, nutricionistas e pesquisadores especializados em microbiota e longevidade. Segundo elas, levantar pesos pode ajudar a alimentar as bactérias benéficas do intestino e desencadear uma cadeia de efeitos positivos que chega até o cérebro.

Como a microbiota intestinal aproveita os nutrientes

Intestino
© FreePik

A microbiota é formada por milhares de espécies de bactérias, cada uma com funções específicas. Algumas delas, como as dos gêneros Bifidobacterium e Lactobacillus, utilizam fibras e carboidratos da alimentação para produzir substâncias como lactato e acetato durante seu metabolismo. Esses microrganismos também podem ser encontrados em alimentos fermentados, como iogurte e kefir.

Outras bactérias, entre elas espécies dos gêneros Anaerostipes, Anaerobutyricum e Eubacterium, utilizam justamente esse lactato para produzir butirato, um ácido graxo de cadeia curta considerado essencial para o funcionamento saudável do intestino.

Quando esse equilíbrio entre as diferentes populações bacterianas é mantido, o intestino funciona de forma adequada. Porém, se as bactérias responsáveis por converter o lactato em butirato estiverem reduzidas, o lactato pode se acumular. Como consequência, o ambiente intestinal se torna mais ácido, favorecendo a disbiose — um desequilíbrio da microbiota que costuma estar associado a sintomas como inchaço, gases e desconforto digestivo.

O butirato protege a barreira intestinal

Esse processo de cooperação entre diferentes bactérias recebe o nome de cross-feeding, ou alimentação cruzada. Em vez de desperdiçar os produtos gerados por outras espécies, certos microrganismos reaproveitam esses compostos para produzir substâncias ainda mais importantes para o organismo.

Entre elas está o butirato, considerado o principal combustível dos colonócitos, células que revestem a parede interna do cólon. Essas células ajudam a manter a integridade da barreira intestinal, impedindo que toxinas, fragmentos bacterianos e partículas de alimentos parcialmente digeridos atravessem a parede do intestino e alcancem a corrente sanguínea.

Quando essa barreira perde eficiência, ocorre o aumento da permeabilidade intestinal. Nessa situação, o sistema imunológico pode interpretar essas substâncias como invasores, desencadeando processos inflamatórios.

Por isso, manter níveis adequados de butirato é visto como uma estratégia importante para preservar a saúde intestinal e fortalecer as defesas do organismo.

O que a musculação tem a ver com isso?

Treinamento de força e musculação: por que preservar seus músculos é essencial para envelhecer com saúde e autonomia
© pexels

É justamente nesse ponto que entra o treinamento de força. Segundo Marián García, durante exercícios como agachamentos, supino ou rosca direta para bíceps, os músculos produzem lactato como parte natural do esforço físico.

Esse lactato entra na circulação sanguínea e chega ao intestino, onde pode ser utilizado pelas bactérias capazes de transformá-lo em butirato. Na prática, isso significa que o exercício fornece matéria-prima para que a microbiota produza um composto fundamental para a saúde intestinal.

Em outras palavras, o benefício da musculação não se limita aos músculos. O treino também cria condições favoráveis para que determinadas bactérias exerçam suas funções metabólicas de forma mais eficiente.

A conexão entre intestino, músculos e cérebro

Os efeitos dessa cadeia metabólica podem ir além do sistema digestivo. De acordo com as especialistas, o butirato também atua como molécula de sinalização capaz de estimular a produção do Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF), uma proteína associada à sobrevivência dos neurônios, à formação de novas conexões neurais e aos processos de aprendizagem e memória.

Além disso, o treino de força induz a liberação de moléculas conhecidas como exerquinas, que apresentam propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras. Entre elas está a irisina, produzida pelos músculos durante o exercício.

Segundo Boticaria García, a irisina consegue atravessar a barreira hematoencefálica e também estimular a produção de BDNF. Assim, tanto o butirato gerado pela microbiota quanto a irisina produzida pelos músculos convergem para um mesmo objetivo: favorecer a saúde cerebral.

Para as especialistas, essa dupla ação funciona como um verdadeiro reforço para o cérebro, promovendo maior plasticidade neural e contribuindo para um envelhecimento mais saudável. Ao mesmo tempo, uma microbiota equilibrada, músculos fortalecidos e um cérebro protegido formam três pilares importantes para aumentar a qualidade de vida e favorecer a longevidade.

 

[ Fonte: We Life ]

 

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