A ideia de que adultos deveriam abandonar o leite costuma aparecer acompanhada de uma justificativa: humanos seriam os únicos animais que consomem leite de outra espécie após o período de amamentação. Para o médico argentino Sebastián La Rosa, esse argumento não permite concluir se o alimento faz bem ou mal. A discussão exige observar evidências, necessidades nutricionais e a capacidade de cada pessoa de digerir seus componentes.
“Natural” não resolve a discussão

Em um vídeo comentado pelo jornal AS, La Rosa contesta a associação automática entre hábitos considerados naturais e alimentação saudável. Para ilustrar o problema, menciona outros produtos que também fazem parte de costumes humanos particulares, como matcha e molhos.
Seu ponto é que a comparação com outras espécies não substitui uma avaliação dos efeitos de um alimento. A aparência lógica de uma frase pode torná-la convincente, mas não demonstra um benefício ou prejuízo à saúde.
Isso também não transforma todos os lácteos em escolhas equivalentes ou adequadas para qualquer pessoa. A pergunta precisa considerar qual produto está em discussão, quanto alguém consome e como seu organismo responde.
A relação com o leite tem milhares de anos
O consumo de lácteos acompanha a história de sociedades humanas há muito tempo. Um estudo publicado na Nature, em 2022, investigou essa relação na Europa a partir de aproximadamente 7.000 resíduos de gordura preservados em cerâmicas de mais de 550 sítios arqueológicos.
Os pesquisadores reconstruíram padrões de utilização do leite ao longo de cerca de 9.000 anos. O trabalho mostrou que seu aproveitamento era disseminado desde o Neolítico, embora variasse entre regiões e períodos.
Essa história ajuda a entender a diversidade atual. Algumas populações apresentam maior frequência de variantes genéticas que permitem continuar digerindo lactose depois da infância. Em outras, a redução dessa capacidade é muito comum.
A evolução, portanto, oferece contexto para as diferenças entre pessoas. Ela não cria uma regra alimentar única para todos os adultos.
Digerir menos lactose não significa sempre ter sintomas
A lactose é um açúcar naturalmente presente no leite e em seus derivados. Quando o intestino não consegue digeri-la adequadamente, ocorre má absorção.
Segundo o Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos Estados Unidos, aproximadamente 68% da população mundial apresenta algum grau de má absorção de lactose. Entretanto, nem todas essas pessoas desenvolvem sintomas.
A intolerância envolve manifestações como gases, distensão abdominal e diarreia após o consumo. Ela também é diferente da alergia ao leite, que envolve o sistema imunológico. Confundir essas condições pode levar a conclusões equivocadas sobre quais produtos alguém consegue consumir.
Nem sempre é necessário excluir todos os derivados

As orientações alimentares do NIDDK destacam que muitas pessoas com intolerância toleram alguma quantidade de lactose. O limite varia, e pequenas porções acompanhadas de refeições podem funcionar melhor para alguns indivíduos.
Iogurtes e queijos duros, geralmente com menos lactose, também podem ser mais fáceis de tolerar. Produtos sem lactose oferecem outra possibilidade.
Quem reduz ou elimina os lácteos precisa considerar a obtenção de nutrientes por outras fontes. Alimentos fortificados, tofu e sardinhas com espinhas, por exemplo, podem contribuir para a ingestão de cálcio. O planejamento deve levar em conta a composição dos produtos e as necessidades individuais.
O debate sobre leite na vida adulta ganha precisão quando abandona slogans. Classificar um hábito como natural não responde às perguntas que realmente importam: o alimento provoca sintomas, contribui para a dieta e atende às necessidades daquela pessoa?