A vacinação é reconhecida como uma das ferramentas mais eficazes da saúde pública, responsável por salvar milhões de vidas todos os anos. No entanto, transformações recentes no cenário internacional acenderam um sinal de alerta na América Latina. Entidades científicas temem que decisões externas possam enfraquecer a confiança da população e comprometer os programas nacionais de imunização.
Sociedades médicas soam o alarme
Em comunicado conjunto, a Associação Pan-Americana de Infectologia (API), a Sociedade Latino-Americana de Infectologia Pediátrica (SLIPE) e a Sociedade Latino-Americana de Vacunologia (SLV) manifestaram preocupação com a renovação completa do Comitê Assessor sobre Práticas de Imunização (ACIP), vinculado ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.
Segundo as entidades, a substituição total de seus membros em 2025 — incluindo nomes associados a visões controversas sobre a segurança das vacinas — pode enfraquecer políticas de imunização baseadas em ciência e comprometer a confiança da opinião pública.
Riscos para a saúde e para a confiança social
As organizações lembraram que comitês como o ACIP, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Grupo Técnico Assessor da Organização Pan-Americana da Saúde (TAG/OPAS) foram fundamentais para erradicar doenças, evitar surtos e reduzir a mortalidade infantil. Qualquer mudança abrupta nesses mecanismos pode abrir espaço para dúvidas e desinformação.
“As vacinas são a intervenção de saúde com melhor custo-benefício da história. Fragilizar sua avaliação científica significa arriscar retrocessos de décadas”, destacaram. Além disso, os especialistas alertaram para cortes em recursos técnicos e financeiros, que já ameaçam a capacidade de ampliar coberturas e manter a infraestrutura necessária em diversos países da região.
Reforçar a imunização em todas as etapas da vida
O documento defende o fortalecimento dos Comitês Nacionais de Assessoramento em Imunização (NITAGs), com especialistas escolhidos por critérios técnicos e transparentes. Também propõe a atualização contínua dos calendários de vacinação, investimentos em cadeia de frio, prontuários eletrônicos e vigilância epidemiológica mais eficiente.
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de ampliar a vacinação ao longo de toda a vida. Além de alcançar mais de 90% de cobertura infantil, as entidades pedem atenção especial para gestantes, idosos e pessoas com doenças crônicas.
Informação e combate à desinformação
As três sociedades médicas ressaltaram que a confiança da população depende de comunicação clara e baseada em evidências. Para enfrentar o avanço do movimento antivacina, recomendam campanhas adaptadas a cada realidade cultural, divulgação de dados públicos de cobertura e segurança, além da incorporação da disciplina de “vacunologia” em cursos de Medicina, Enfermagem e áreas correlatas.
Um chamado aos governos
O comunicado termina com um apelo aos governos latino-americanos, à sociedade civil e a organismos internacionais: garantir a independência técnica dos conselhos, ampliar os orçamentos destinados à vacinação e preservar a tomada de decisões baseada em ciência.
“Sem sistemas de imunização robustos e decisões informadas por evidência, existe o risco de novos surtos e retrocessos graves na saúde pública”, alertaram a API, a SLIPE e a SLV. Para as entidades, a vacinação deve permanecer como prioridade estratégica, não apenas para prevenir doenças, mas também para construir resiliência social diante de futuras crises sanitárias.